Você sabe quem você (NÃO) é?



A inspiração deste artigo veio desta imagem, compartilhada por alguns amigos:





A mensagem pretende ser clara e positiva e reconheço estes aspectos. Entretanto, com todo o respeito ao autor original e a meus amigos que postaram a imagem, peço licença para apresentar uma outra interpretação: Se você nasceu um gato poderá ser o melhor dos gatos, mas nunca será um tigre.


Você poderá se aprimorar em muitos aspectos, com cursos, seminários, livros, artigos do Linkedin, processos de coaching, vídeos do youtube. Se você quer ser uma pessoa melhor, um profissional melhor, não faltam boas ofertas de conhecimento e capacitação. Seu aprimoramento pessoal, continuo e frequente, é sua responsabilidade e com disciplina e perseverança você poderá se desenvolver consistentemente.


A disposição de ser um pouco melhor a cada dia enobrece a vida e dignifica nossa existência. Mas um gato é um gato e um tigre é um tigre. Deus nos fez seres únicos e distintos e é o conjunto de nossas diferenças, a soma de nossas individualidades, que compõem a maravilha da humanidade. Sim, mesmo com defeitos, vícios e problemas, a humanidade em seu conjunto progride, ama, consola, suporta uns aos outros. Não é perfeita, mas busca ser melhor e mais justa.


A cada um de nós cabe a busca daquilo que somos e rumar ao que poderemos nos tornar. Precisamos buscar a essência que nos faz únicos, compreendê-la e aprimorá-la. E, desta forma, nos desenvolvendo continuamente, contribuir para as pessoas, aos que amamos e aos que nem conhecemos, colaborando com nossa pequena parcela para a humanidade.


A importância do Talento


 Quando criança, eu pensava que poderia ser qualquer coisa que quisesse. Um tempo depois reconheci que meu pouco talento esportivo não me permitiria ser um jogador de futebol, mesmo que treinasse muito. E, tristemente, minha desafinação crônica e falta de ritmo nunca me permitiriam ser um astro do rock.


Tudo bem que seja assim! Talento é fundamental para um esportista e para um músico e assim é também para outras profissões, embora a percepção deste talento muitas vezes seja mais discreta do que a comparação entre Pelé e um perna de pau.


O gato querendo ser tigre me lembrou uma reflexão recente ao visitar uma livraria, na área de livros de negócios. São abundantes os livros falando de Liderança e raros os que falam sobre como se tornar um profissional melhor, sem envolver a busca de uma posição de liderança. Não só nas estantes das livrarias, mas também na imprensa e nas redes sociais existe um discurso preponderante, que impõe uma visão limitada aos profissionais. Este discurso prega que todo profissional deve se preparar para ser líder, pois sua carreira só evoluirá através da conquista de uma posição de liderança.


Reconheço que muitas empresas defendem esta visão e estruturam seus organogramas e carreiras desta forma. Talvez a maioria delas. Isso pode ser verdade para a maior parte das empresas e assim influenciar autores e jornalistas. Mas não é a verdade para grande parte das pessoas que não tem aptidões e vocações, ou talento, para uma posição de liderança.


Eu entendo esta situação e pensei assim por um bom tempo. Na maior parte das empresas é realmente isso o que acontece, você precisará ser promovido a uma posição de liderança se quiser maior salário e um melhor posicionamento de carreira.


Conheci lideres natos e também lideres formados, através de capacitação, muito esforço pessoal e acumulo de experiências. É evidente que apenas talento não basta, os melhores esportistas aliam talento com treinamento contínuo. Entretanto, ao longo da vida conheci muitos profissionais que nunca se tornaram bons lideres, mesmo com muito esforço, pois faltava talento e uma vocação verdadeira. Isso é terrível para a empresa, para a equipe e para o próprio profissional.


Também conheci profissionais que nunca quiseram uma posição de liderança, mas a aceitaram como único caminho de progresso. Mesmo alguns até conseguindo ser bons lideres, eram profissionais tristes, afastados das tarefas que gostavam de fazer com uma agenda ocupada agora por questões administrativas e gestão de pessoas.



A realidade é óbvia, nem todos alcançarão posições de liderança. Para cada CEO existem muitos profissionais operacionais. Para cada líder de equipe, um contingente de “fazedores”. Os modelos organizacionais, com todas as suas variações, têm uma essência piramidal, com poucos no topo e muitos na base. Existem empresas que permitem e estimulam a ascensão profissional sem obrigatoriedade de uma posição de liderança. Apresentam carreiras em “Y”, que permitem que profissionais técnicos se aprimorem através de alta especialização enquanto outros terão a sua ascensão através de posições gerenciais.


Existe ainda um terceiro grupo de profissionais, que chamo de “carregadores de piano”. São profissionais que cumprem suas funções com excelência, mas que não almejam uma posição de liderança e cujas funções não permitem altas especializações que caracterizariam uma carreira em Y. É uma situação muito comum em equipes administrativas. São pessoas essenciais à organização, mas cujas tarefas tem pouca visibilidade e atrativos.


É totalmente possível ser um profissional de sucesso sem ser um líder. Mas não é fácil encontrar livros e artigos defendendo esta posição e oferecendo conhecimento e técnicas para ajudar pessoas nestas condições.


Por melhor gato que você seja, nunca será um tigre


Minha percepção, voltando à imagem do gato querendo ser tigre, é que o discurso onipresente da ascensão via liderança pode iludir profissionais que não tem uma visão formada ou muito consistente sobre aquilo que são e querem para suas vidas. Um gato pode ser iludido com este discurso e lutar a vida toda para ser um tigre. Até que um dia percebe que não será. Nesse momento poderá adotar uma máscara, que prejudicará sua qualidade de vida e suas condições emocionais. Quanto mais tarde o gato perceber que não é tigre, maiores serão o sofrimento e a decepção.



Saber quem você “não é” é tão importante quanto saber quem você é!


Encontrar a verdadeira vocação é uma busca difícil. É cruel a pressão sobre os jovens vestibulandos, que precisam decidir uma carreira antes de ter sua visão de mundo formada. Depois da faculdade, muitos convivem com a dúvida da escolha e a entrada no mercado de trabalho traz ainda maiores dificuldades. A grande maioria das pessoas é levada frequentemente pelo rumo das necessidades e algumas poucas vezes pelas oportunidades, quando estas surgem.


Assim, os sonhos vão sendo construídos como dá, ao sabor das ondas, de acordo com as regras da empresa do momento. Como temos uma vontade natural de progresso, é fácil cair na ilusão da ascensão a todo custo, da loucura das metas, da competição exacerbada. Muitas empresas inclusive, incorporam estas práticas em suas culturas organizacionais.


Já vivi os dois lados da moeda, sendo conduzido por práticas e políticas organizacionais e as formulando, para direcionar o esforço (e os sonhos) de outros. Sei como é. Se a empresa agir com integridade e ética não será desonesta, pois é uma forma de orientar aquilo que a empresa aprova e reconhece como valor profissional. Mas o corpo de funcionários é tratado como um conjunto de indivíduos similares, quase uniformes. A visão específica do indivíduo não costuma ser preocupação da empresa.


Cabe ao profissional se libertar das políticas organizacionais, da cultura empresarial e dos ditames do mercado editorial e da imprensa, para saber quem ele é realmente. Não prego rebeldia contra políticas e culturas empresariais, tudo deve ser respeitado e considerado como regras do jogo, mas cada profissional deve buscar sua própria visão sobre o que é importante em sua carreira e momento de vida. Cabe ao profissional conhecer o jogo e decidir se quer jogá-lo ou não. Se quer esta empresa ou outra, esta carreira ou outra.



Você precisa saber o que quer para a sua vida. Quais os seus talentos e a sua vocação. Mas tão importante quanto isso, você precisa saber o que não quer para a sua vida. Uma posição de liderança traz responsabilidades imensas sobre a vida de outras pessoas e se isso não é para você, não busque apenas o salário e o status da posição. Lidar com gente é desgastante, cansativo, toma tempo. Um verdadeiro líder trabalha mais que seus funcionários, pode até chegar um pouco mais tarde pela manhã, mas sairá muito mais tarde do trabalho à noite. E pode ter certeza de que este trabalho não é remunerado na proporção exata de seu esforço e responsabilidade.


Se você quer ser líder, se esforce e seja o melhor líder que puder ser. Preocupe-se verdadeiramente com a sua equipe, dê seu sangue por eles e você alcançará satisfação verdadeira ao vê-los progredir. Mas se você não tem isso em seu coração, se quer apenas o salário, a posição e o status, desista e vá buscar outras maneiras de ganhar mais dinheiro, na sua empresa atual ou em outras. 


Nem todos serão lideres, nem todos subirão todos os degraus da hierarquia. E isso é bom. As empresas e a sociedade precisam de pessoas em todas as funções e atribuições. Você poderá se especializar na sua área técnica e se transformar em uma referência na profissão. Mas a realização profissional não precisa vir apenas através de um emprego. Você pode dar aulas a noite e disseminar conhecimentos. Pode fazer trabalho voluntário. Pode escrever artigos como esse, publicar livros. Da mesma forma, uma vida com satisfação não virá apenas da dimensão profissional. Dedicação à família e amigos é fundamental. Desenvolver sua espiritualidade, frequentar uma igreja, ajudar aos necessitados. Tudo isso colabora para uma vida plena e feliz.


As posições de liderança, principalmente as mais elevadas, cobram um preço alto em dedicação, competitividade e postura. E nem sempre estas posições trazem satisfação verdadeira ao indivíduo que as buscou incessantemente ao longo da vida.


Pense naquilo que você é como pessoa e saiba quem você não é. Você não é qualquer um, nem serve para qualquer coisa. Não deixe a vida te levar, nem artigos como esse te induzir facilmente. Reflita naquilo que serve para você, use o que serve, descarte o que não serve, e faça o melhor possível a cada dia.

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