Sementes no palco da vida



Tempos de pandemia e na fila do supermercado ouvi uma senhora reclamando de um homem sem máscara. Dizia que era um absurdo e que colocava todos em risco. Ela tinha razão, claro. Não me solidarizo ao homem irresponsável, mas a situação me ajudou a refletir sobre a minha transformação pessoal. E de como posso ser visto pelas pessoas ao redor.


Por vários motivos há alguns anos comecei um processo de profunda reformulação de vida, em todos os seus aspectos. A transformação foi tão ampla que praticamente reiniciei minha existência do zero.


Em grande parte o vetor e o direcionamento das mudanças vieram pela espiritualidade cristã e pela fé. Toda uma outra dimensão da existência passou a fazer verdadeiro sentido. Passei a buscar uma vida mais coerente com meus princípios e valores e menos com metas e objetivos pessoais mal definidos, principalmente relacionados à status, poder e bens materiais.


Uma vida com propósitos, fundamentada em princípios e valores, desprendida, generosa, confiante no melhor das pessoas e compreensiva ao seu pior. Seguindo a lei da semeadura como referência, sem me preocupar demasiadamente com as sementes ou com os cuidados que elas exigem, mas confiante nas colheitas a trinta, sessenta e cem por um. Aos terrenos pedregosos ou cheios de espinho passei a dedicar as minhas palavras como um arado.


Toda transformação exige coragem e a minha se manifestou ao abandonar as várias personagens para ser um só, em toda e qualquer situação. A vida normal exige as personagens, precisamos delas, pois é isso que a sociedade espera de nós, uma máscara adequada à cada situação e ocasião. A exigência de ser o excelente profissional, determinado, racional em suas decisões e sempre em busca de resultados práticos. Ser o pai amoroso e cuidador, o companheiro ambicioso, compreensivo e fiel, o amigo leal, o colega gente boa, o aluno atento, o professor atencioso, o apaixonado romântico, o amante voraz.


Vivi meu próprio teatro na vida, com meu camarim repleto dessas e de outras máscaras, interpretando bem alguns papéis, mal outros, mais ou menos a maioria.


Abandonar o palco e as máscaras foi a decisão mais corajosa e continua exigindo a mesma bravura, dia após dia.


A vida que decidi ter assume o rosto desnudo, as emoções à flor da pele, a intuição desperta, a sensibilidade atenta à tudo e todos, minha verdade exposta a quem quiser vê-la. Meus olhos são menos analíticos e mais acolhedores das dores, formas, belezas e cores. Evito racionalizações prévias, deixando que primeiro as emoções me invadam para só depois refletir sobre elas. Abandonei a frieza dos cálculos em busca das decisões mais lucrativas em troca do calor de compartilhar processos, aprendizados e então os resultados.


Percebi que mesmo sendo um solitário por excelência a minha vida só faz sentido na irmandade, na solidariedade, mesmo que se manifeste apenas por palavras de apoio e conforto ou companhia nas dores alheias. Aprendi que meu coração só funciona movido pelo amor, um amor por tudo e todos, em todos os seus aspectos, de eros a ágape.


Aprendi que amar se aprende amando e só se justifica a vida junto se plena, qualquer coisa menos que isso se torna um desperdício da capacidade de amar.


Entendi que meu propósito nesse mundo não busca o mesmo sucesso esperado pelo que é comum e que de comum nada existe em mim. Sou único ao mesmo tempo que espelho o Pai, assim como você, como todos. Somos todos feitos à sua semelhança e mesmo assim únicos, especiais e importantes na contribuição à vida pela humanidade, uns pelos outros.


Abandonei o palco e a peça escrita por outros como referência daquilo que deveria viver. Decidi ser meu próprio autor, construir a minha história à minha forma, contando como única e exclusiva personagem eu mesmo, sem máscaras, com todos meus imensos defeitos e escassas qualidades, meus talentos e incompetências. Mas sempre com a sensibilidade como guia da existência e condutora das relações.


Não mais a racionalidade fria e a postura implacável do profissional de resultados. Abandonei a busca de perfeição dos modelos dos demais personagens. Agora sigo apenas como o homem pleno de si em qualquer de seus atos, atividades e posturas.


Da mesma forma como a senhora que se indignou com o homem desmascarado no mercado, as pessoas se assustam ao perceber alguém à sua volta que abandonou as máscaras das personagens previsíveis. Eu assusto as pessoas, reconheço, porque fora das personagens da peça definida pela vida comum passo a ser imprevisível, sujeito à decisões emocionais, exposto a sensibilidades várias, capaz de sacrifícios inesperados ou de abandonar materialidades de forma incompreensível à quem vive o jogo da vida.


Tomo decisões irracionais a quem não calça meus sapatos. Ouso ter iniciativas inesperadas, sem o medo da exposição ou do ridículo. Arrisco o trapézio sem rede pois sei que meu Pai me ampara em todas as quedas. Minha fé exige e se manifesta por saltos no vazio, incompreensíveis aos que seguem a normalidade da vida.


Vejam, não julgo ou critico quem está no palco seguindo a peça proposta para as suas vidas. É necessário que seja assim, que busquem o que desejam, que sigam os padrões, pois sem isso não haveria sociedade. Eu apenas me reservei o direito de ser espectador de todos e autor do meu próprio monólogo.


Sigo semeando o que acredito, sabendo que algumas sementes encontrarão terreno fértil e um dia germinarão. Outras sementes se perderão e tudo bem. Semeio para que cada ator e atriz dos palcos da vida possam ter alguns momentos sem máscaras, longe de seus personagens, no escuro de seus quartos, para que deixem sua sensibilidade verdadeira aflorar e a vida lhes invadir o peito.



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