A Luz dos Olhos meus



Com esse titulo é inevitável cantarolar o poema do Vinicius musicado pelo Tom e cantado por ele com a Miúcha. Obra de arte inesquecível, uma ode ao amor e ao encontro (já que há tantos desencontros nessa vida...).


Mas não é de amor que falo aqui. Aliás, pode até ser amor, mas não o romântico. Antes amor pela vida.


A forma como vejo a minha vida a define. O que enxergo decide meu humor. O que observo atrai a minha atenção. O que não vejo, ignoro.


Há meses vivendo com essas máscaras mudei a forma como interpreto as pessoas. Sempre busquei a expressão facial e o movimento da boca como forma complementar de compreensão daquilo que se ouve. Embora por aqui em Lisboa se fale português, o que é óbvio, são muitas as expressões desconhecidas e sotaques difíceis.


Agora apenas os olhos são observáveis e descobri uma curiosidade: as pessoas parecem mais nuas hoje em que busco interpretá-las através de seus olhos do que antes com a cara limpa.


Olhos que expressam a alma, diriam poetas. Que são janelas ou portas, conectando o interior com o mundo. E a mesma janela que permite que a luz entre ao longo do dia permite também que a luz saia ao longo da noite.


Olhos são vidros transparentes, mas também são lentes enviesadas que permitem enxergar o mundo como nós achamos que ele é.


Perder a chance de observar o mundo é resgatá-lo pela memória. Lembrar de como ele é ou foi. E perceber como um mesmo mundo com as mesmas condições e características pode ser tão distinto a cada olhar.


Perder temporariamente o olhar sobre o mundo permite repensar a forma de vê-lo, mas o que poderia ser uma lição simples de assimilar se torna um obstáculo difícil de ultrapassar.


Ver é exercício, olhar é aprendizado. Pensamos que não, pois parece natural abrirmos os olhos e observarmos instantaneamente tudo à nossa volta. Mas não é assim. Um bebê leva meses até enxergar o mundo como ele é, pois nasce com uma visão imprecisa e sem definição. Sabe-se que um bebê demora a perceber formas e objetos além de 30 ou 40 cm de distância e que até as cores só serão percebidas após alguns meses do nascimento.


Se hoje busco aprender a compreender as pessoas pelo seu olhar e isso faz sentido, comprovo um desperdício na forma como eu tratava até então. Talvez apenas o tom de voz e os movimentos da boca bastassem, talvez eu perdesse o recurso dos olhos, não sei. Mas existe mais a se ver com um mesmo olhar do que eu imaginava.


O maior aprendizado, entretanto, talvez tenha vindo do período que atravessei sem me permitir ou poder olhar as coisas como elas são.


Muitas vezes mergulhamos em fases tão fortemente definidas, boas ou más, que tudo a ser observado à nossa volta confirma essa própria definição. Para alguém de luto até o sol sobre as flores aumenta a saudade e a tristeza. Para quem está enamorado esse mesmo sol sobre as flores preenche seu coração de esperança e prazer.


A forma como vemos a vida diariamente contribui para defini-la, pois na maior parte do tempo não vivemos fases tão fortemente definidas. O luto é tão temporário quanto o apaixonar-se. E o sol sobre as flores é sempre o mesmo.


A vida pode ser definida pelas suas restrições ou liberdades, pelo que temos ou pelo que ansiamos ter. O ponto de partida do olhar sobre a vida pode ser a insatisfação ou a gratidão. E isso faz toda a diferença.


Ser grato pelo que tem não significa se acomodar, da mesma forma que estar insatisfeito com a vida carente não significa necessariamente ter a motivação para ir em busca daquilo que falta. Progredir tem a ver com disciplina, esforço, dedicação e força de vontade. E quantas vezes isso nos falta!


Toda progressão é árdua e cansa. Nunca é uma linha reta de ascensão e sucessos, mas um caminho tortuoso, com obstáculos e decepções, ganhos e perdas. O viajante que percorrer esses caminhos com gratidão pelo que passa terá a motivação distinta daquele que foge insatisfeito com sua situação.


Vivo isso na pele. Meu olhar sobre as mesmas coisas varia de dia para dia, de semana para semana. O sol que num dia me aquece e conforta no outro me cega com seu brilho excessivo. O que me limita num dia me consola pela leveza no outro. O que me falta hoje não provoca a preocupação e o compromisso de amanha.


Vida louca não é? A mesma vida de um dia e de outro em um momento sendo leve e despreocupada e no outro sendo tão plena de carências e desconforto. Um sábio diria que a vida que temos não pode ser definida pelo que temos na vida. O olhar que tenho sobre a minha vida a define para muito além das coisas que tenho ou que me faltam.




As vezes tudo parece tão óbvio. Qualquer livro de autoajuda poderia ter mostrado isso. Gosto de aprender e de estudar, mas penso que aprendo mesmo é com as minhas cabeçadas. E há anos bato cabeça em lições intermináveis que nunca consigo aprender.


Há algum tempo decidi mudar de ares e desembarquei em Portugal em busca de minhas raízes e de um outro futuro. A bagagem física foi pouca, mas a emocional foi total. Não deixamos dores e tristezas na terra natal, infelizmente. Essa bagagem insiste e persiste em pensamentos ruminantes, estimulados por olhares dolorosos que eventualmente condicionam a minha visão sobre a vida.


Essa bagagem é componente necessário à maturidade, mas isso não a torna mais leve. É o seu peso que justifica o valor que damos à nossa própria existência. Um peso por vezes difícil de carregar. Mas é essa mesma bagagem carregada de dores que me faz perceber melhor a graça e o encanto de uma tarde de sol passeando ao longo do Tejo.




William Andreotti Jr.


Escritor, consultor, mentor e produtor de conteúdos sobre Administração, Negócios, Recursos Humanos e Carreiras. Defensor de uma visão humanizada para o mundo dos negócios e carreiras profissionais baseadas em princípios e valores. Às vezes falo sobre a vida e se você se pergunta o que isso tem a ver com trabalho, por favor releia.

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