O Tempo de todas as Coisas



Como o tempo demora a passar! Já sabemos que estamos prontos para aquela promoção e ela não vem. O cliente ficou de aprovar a proposta e atrasou. O comprador da casa ainda avalia se vai avançar ou não com o negócio. A editora com nosso manuscrito em análise sem resposta. Fizemos a nossa parte, mas o mais difícil é esperar o tempo necessário para que as coisas aconteçam.


Medimos o tempo fisicamente, em horas ou dias, mas sua dimensão real vem através da percepção. Distâncias são mais simples, um trajeto de 500 metros é o mesmo para mim e para você. Podemos ter uma ideia diferente sobre percorrê-lo se estivermos em condições físicas diferentes. Mas esta percepção pouco interfere na grandeza física dos 500 metros. Com o tempo é diferente. É a nossa percepção que define a sua grandeza. Uma semana até o salário entrar é muito diferente de uma semana até o resultado da biópsia. A percepção sobre o tempo é tão fundamental que as grandezas físicas que o medem às vezes são irrelevantes.


O tempo é sofrido na maior parte das vezes em que o percebemos. Quando não é, não o percebemos. Os momentos felizes são fugazes, breves momentos em que não nos damos conta da própria passagem do tempo e quão rápida ela se faz.


O tempo percebido é o tempo sofrido, seja arrastado ou perdido. Considero o tempo perdido aquele que já foi, aqueles momentos felizes que vivemos e hoje temos a impressão de não os termos usufruído plenamente. Um tempo que gostaríamos de reviver, novamente estando ali, para aproveitá-lo como deveríamos tê-lo aproveitado. O brilho dos olhos das minhas filhas em sua primeira infância, quando brincavam no jardim, representam momentos assim. Eu os vivi, mas sinto que os viveria muito mais vezes e com muito mais intensidade e presença se pudesse, pois quando ali estive não tive a exata percepção de sua transitoriedade e finitude. Só distante daquele momento posso perceber a grandiosidade da felicidade que então vivi.


Tempos felizes de ontem que hoje trazem pequenas angústias pela impossibilidade de revivê-los, de reencontrar pessoas que se foram, fases da vida que passaram, de experimentar novamente as mesmas sensações e emoções. Todo passado tem tristezas mas mesmo os momentos mais felizes que vivemos quando relembrados trazem uma pontinha de amargura por acharmos que não os aproveitamos plenamente.


Amadurecemos e entendemos a lição de como aproveitar melhor o tempo, de como viver melhor o presente, porque no futuro as lembranças do passado terão um preço. Se você é jovem e esperto aprenda por mim, não espere o tempo passar para aprender uma lição fundamental: seja verdadeiramente pleno em seu presente e viva cada momento como se este fosse único e irrepetível, pois ele é.


O tempo não é apenas fonte de lembranças. O tempo de espera pode ser causa de dor, quando se arrasta sem que compreendamos o porquê. Aguardamos decisões, esperamos oportunidades, achamos que nosso tempo já chegou, mas ele insiste em se mostrar impassível e lento. Muitas vezes achamos que estamos estagnados. Sofremos por ansiedade ou simplesmente por uma espera sem fim, resignados a um destino que não compreendemos.


A observação da natureza nos ensina muito sobre o tempo de todas as coisas. O dia que sucede a noite. As mudanças da lua, o ciclo das estações. A tempestade que uma hora passa e o sol aparece. Mas a melhor descrição que conheço sobre o tempo e sua influência em nossas vidas está no livro de Eclesiastes capítulo 3: 




Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu:


tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou,


tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de construir,


tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar,


tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las, tempo de abraçar e tempo de se conter,


tempo de procurar e tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de lançar fora,


tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo de falar,


tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz.


Eclesiastes 3:1-8



Existe um tempo para todas as coisas. Devemos compreender o fluxo do tempo e a necessidade deste tempo em todas as suas dimensões. Uma semente precisa de tempo para germinar, crescer, florescer e gerar frutos e novas sementes. Um esforço precisa amadurecer, um conhecimento precisa sedimentar, um entendimento precisa de reflexão para ser efetivamente compreendido.


Dizem que não adianta reunir uma equipe de nove mulheres para que um bebê nasça em um mês. Muitas vezes não é a soma dos esforços que trará o resultado mais rápido. Resultados precisam ser construídos e em alguns momentos as coisas precisarão apenas ficar soltas, para que possam amadurecer e florescer. A sabedoria é perceber estes momentos, compreender o tempo das coisas e não se afetar emocionalmente. Um dia espero alcançar esta sabedoria.



Existem fases da vida onde tudo o que podemos fazer é suportar e esperar. Todos os problemas do mundo parecem se reunir em nossas costas e mal conseguimos respirar, tamanha a pressão sobre o nosso peito e a opressão sobre a nossa alma. Percebemos que nada podemos fazer para que isso mude. Por mais que tentemos, nossos esforços são inúteis e nossos movimentos não levam a lugar nenhum. É um tempo de recolhimento, de aprendizagem, de busca da espiritualidade. Deus permite que essas aflições venham pois existem coisas que só assim poderemos compreender. Só vivendo uma situação de total impotência diante dos extremos é que podemos perceber a necessidade da nossa entrega em amor a Deus. É uma forma de percebermos que temos um Pai, que nos observa e cuida. E de passarmos um tempo com Ele, pois no fundo é isso o que a oração é.


Minhas filhas naquele jardim brincavam animadas com suas amigas. Passavam horas divertidas, sem pensar em nada a não ser em suas brincadeiras. Nem percebiam a minha presença muitas vezes. Eu as observava feliz e atento às suas necessidades. Se uma delas caia e ralava o joelho, aos prantos me procurava, pois sabia que eu estaria ali para socorrê-la. Fui o pai que cuidou delas nesses momentos de dor. É assim que Deus age comigo hoje.


Aproveite o momento, aproveite o dia. No capítulo 9 de Eclesiastes vem uma recomendação para que desfrutemos a vida com quem amamos todos os dias, pois essa é a nossa recompensa pelo nosso árduo trabalho debaixo do sol. Diz ainda que aquilo que tivermos de fazer que o façamos com toda a nossa força, e o autor nos alerta:



“Percebi ainda outra coisa debaixo do sol: Os velozes nem sempre vencem a corrida; os fortes nem sempre triunfam na guerra; os sábios nem sempre têm comida; os prudentes nem sempre são ricos; os instruídos nem sempre têm prestígio; pois o tempo e o acaso afetam a todos.


Além do mais, ninguém sabe quando virá a sua hora: Assim como os peixes são apanhados numa rede fatal e os pássaros são pegos num laço, também os homens são enredados pelos tempos de desgraça que caem inesperadamente sobre eles.”


Eclesiastes 9:11,12



Precisamos aprender a lidar com o tempo. Se for o tempo de agir, vamos agir. Se for o tempo de esperar, vamos esperar. E só isso, sem angústia, sem ansiedade. Simples, mas difícil de alcançar.


Tanto agindo quanto esperando, devemos aproveitar cada momento presente. Precisamos viver o que temos plenamente e desfrutar sempre daqueles a quem amamos. Só assim teremos boas lembranças e com elas, ao fim de tudo, saberemos que valeu a pena cada segundo.

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