Esperanças



A esperança é a luz sobre o futuro. Há momentos em que é fraca como uma lamparina, noutros forte como um farol. Cumpre a sua função se ilumina, mesmo que mal e pouco, o passo que damos em direção ao amanhã. Se ausente, andamos no escuro correndo o risco de errar o caminho.


Por mais que rotineiro e previsível, o amanhã é desconhecido. Traz consigo surpresas, preocupações ou boas expectativas, futuro que assusta ou acalenta. Só a esperança ousa clarear estes caminhos.


Viver sem esperanças é não ter a luz sobre os passos, já que não importa o rumo em dias que se arrastam iguais e modorrentos. Nada poderá mudar e mesmo que mude já não interessa, pela falta de expectativas de um melhor porvir. Vamos seguindo a corrente, deixando-nos levar pela vida e suas impertinências.


Esperança se relaciona com expectativas e é um tanto abstrata, pois seu próprio objeto tem ares indefinidos. Não corresponde a confiança, pois confiamos quando acreditamos em algo com maior objetividade e sustância. A confiança que quando se expande é transformada em fé, que traz em si a certeza de que um dia tudo dará certo e terá sentido. Esperança e fé se combinam e são aliadas na superação dos desafios do caminho. A esperança sem fé é a crença no acaso, talvez vazia, mas que não deixa de ser fé em algo. Até conseguimos, por maluco que seja, seguir com fé e sem esperança. Talvez seja uma questão de proximidade ou distância do futuro. É possível acreditar na vida eterna e não ter esperanças na via terrena. Podemos ter fé em Deus e mesmo assim viver sem esperanças de um dia melhor amanhã.


A fé alimenta a esperança, mas a nossa curta e turva visão fica presa às questões imediatas, às carências e ausências e não se dá conta de que a certeza do futuro prometido poderia nos acalentar. Olhar o futuro distante pode facilitar a compreensão da transitoriedade do presente e a desesperança no curto prazo. Talvez por isso a Palavra traga tantas promessas e na vida algumas ainda nos surpreendam.


Por vezes é difícil viver entre tantas coisas que faltam e ainda manter viva uma esperança, por mais que a fé esteja presente. Sim, é possível ter Deus no coração e ainda andar nas trevas. O vale da sombra da morte e o deserto existem para serem atravessados, mesmo que passo a passo nas trevas ou sob tempestades. O que move nossos piores passos nessa travessia já nem é a certeza de chegar a um lugar melhor, mas o compromisso com o Criador que nos faz dar um passo a mais, com forças derradeiras, seguindo em frente como Ele deseja que sigamos. Um compromisso que é mútuo, pois se somos nós a dar o passo é Ele que nos sustenta pelas mãos.


Vales da morte e desertos podem se suceder quase infinitamente. Mesmo sabendo que o destino eterno está lá, a travessia segue plena de dores e ausências. Mesmo que a esperança acabe, existe algo íntimo que nos impulsiona. Está no nosso coração e nas nossas células. É a fé, como disse. Fé que não é um dom ou habilidade adquirida, antes inspirada dentro de nós. É ela que nos leva a um passo a mais quando todas as esperanças se esvaíram.


A inspiração da fé é um ato de amor. O presente dado por Deus para guiar nossos passos na escuridão da vida. O amor de um Pai que pode não dar a seu filho tudo o que ele lhe pede, mas dá tudo aquilo que o habilita a viver. Mais do que satisfazer necessidades imediatas dá ao filho a condição de seguir nas carências, mais do que resolver os problemas inspira as forças para superá-los.


Esperança, fé e amor. E destes o mais importante é o amor, já nos disse Paulo. Estas três virtudes deveriam estar sempre juntas e quando não estão apenas o amor poderá reconstruir o conjunto.


Sigamos mais um passo além na tempestade escura mesmo que não por esperança, mas revestidos da fé inexplicável, inspirada pelo amor que de graça recebemos.




A esperança é uma lanterna em nossas mãos e a responsabilidade sobre as pilhas é nossa. A energia que alimenta a lanterna vem de nós. Ela se alimenta da nossa disposição e estado de espírito. A tristeza drena a energia, a alegria carrega as baterias. Manter-se em estado de esperança é estar disposto à vida, carregado de energia vital. Quando assim estamos a nossa própria luz brilha mais forte, o mundo percebe a nossa disposição e força para os passos do futuro.


Mas quando acabrunhados, nossa falta de energia ressalta, somos percebidos como fracos, desanimados, doentes. Estar desanimado é estar sem alma, sem a energia que nos impulsiona.


Se enfrentamos algo que não depende de nós, mantermo-nos esperançosos nos desafios cuja solução dependa da decisão de outras pessoas pode ser decisivo para que algo favorável aconteça.


Ser esperançoso não é o mesmo que ser otimista. Não se trata de uma visão positiva ou inocente sobre as adversidades. Esperança é a certeza dentro de si de que as coisas irão melhorar ou que coisas novas virão facilitar o caminho.


Nem todas os problemas dependem de decisões imediatas ou simples. Existem adversidades que são obstáculos no caminho, como uma pedra ou um buraco a contornar. Mas existem outras adversidades que são o próprio caminho, como as rotas pelo deserto ou pelo vale das sombras e da morte. A esperança sempre ajudará, iluminando tanto a pedra simples quanto a jornada difícil.


Até poderíamos optar por não ter esperança e não dar o passo no caminho em trevas. Poderíamos nos entregar ao fluxo dos problemas, desistindo da caminhada. Mas isso significaria desistir da vida, desprezar ao amor que nos criou, abdicar do futuro onde tudo fará sentido. Quem assim o faz entristece aos seus e a Deus. Despreza a maravilha da vida que recebeu, que mesmo turbulenta e cheia de problemas ainda permite o por do sol ou o sorriso nos lábios de uma criança agradecida por um gesto de carinho.


O caminho é difícil para todos. Cada um tem sua própria jornada e a está percorrendo sozinho, apenas com Deus ao seu lado. Reconhecer isso faz toda a diferença.


Use a lanterna, mantenha viva as suas esperanças.

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