O velho punk


Meu inicio de vida adulta foi conturbado. Já percebia o sistema com suas algemas e antevia o quanto poderia ser sedutor e castrador, um ilusório caminho de realização e destino de frustração.


Vivia com meus cadernos de textos não publicados e poesias impublicáveis. Não havia internet e blogs para acomodar palavras rabiscadas por emoções sufocadas – eu daria tudo para ter de volta alguns desses cadernos hoje.


Escrevia apenas porque era necessário. Não havia outra forma de lidar com as emoções, a não ser a catarse musical do rock alto em bailes e shows, tomando cerveja ruim ou quando tinha algum dinheiro uma mistura intragável de whiskie barato e guaraná, mas que fazia com que eu me parecesse de outro lugar.


Foi a musica que deu as pistas da contestação. Os punks mostraram a revolta possível e a mim inalcançável a não ser na vestimenta puída dos brechós, os coturnos e a visão anárquica generalizada pelo desprezo aos modelos de autoridade.


Foi uma fase da juventude, passageira claro, mas que fincou o desejo ambicioso de independência do sistema, mesmo que tivesse que fazer parte dele para conquistá-la. Entretanto, demorei a compreender com clareza o que hoje descrevo como viver na Matrix tendo plena consciência de sua existência, usufruindo das narrativas propostas sem permitir a contaminação do eu.


Fui corajoso, reconheço. Não tanto ao desafiar alguns padrões morais e comportamentais antiquados de uma sociedade ainda um tanto restritiva aos de fora, mas sobretudo quando aceitei as regras do jogo em geral para que eu fizesse o meu próprio jogo autoral no tabuleiro proposto.


Conhecer e dominar as regras do Jogo da Vida para que o meu jogo fosse jogado, de acordo com o meu sistema de valores, princípios, vontades e comportamentos, mesmo que aparentemente aceitando as regras impostas pelo modelo social.


Tive algum sucesso. Muito mais do que eu podia imaginar quando meus objetivos maiores eram de subverter a realidade existente a uma outra, aos meus olhos melhor, mais rica, produtiva ou qualquer que fosse a qualidade diferencial buscada. Para mim bastava que fosse diferente e que o caminho autoral de sua realização fosse o suficiente para que a minha assinatura estivesse lá. Pensava que bastaria.


A minha revolta ao sistema e aos seus podres me levou a entrar em seus intestinos mudando o caminho dessas tripas achando que não me contaminaria em suas merdas.


Não deu, claro.


Mas demorei a ser abatido. Minha luta durou anos, lidando com tripas distintas e bolos fecais diversos, em ambientes vários, sempre recheados de regras, imposições, pessoas sem caráter (algumas não) e o mais perigoso ardil que o sistema oferece: as suas algemas de ouro. O vão e ilusório sucesso que nos é vendido como realização, como promessa de nos satisfazer mas que apenas nos prende mais e mais nas regras do sistema idiota. Aquilo que pensamos que conquistamos mas que na verdade nos transforma em conquistados.


Aceitei as algemas de ouro. Sempre tive a consciência de sua existência e poder, mas confesso que durante um longo período na vida as aceitei de bom grado. Estava cansado da rebeldia juvenil, pensava. Uma energia que só me isolava dos demais, que me transformava no lobo solitário sempre a querer transformar algo, ou reformar o que não acha bom simplesmente para provar que é diferente ou para mostrar o quanto os adversários são ruins ou fracos.


Aceitei as correntes da ilusão, embora lampejos de consciência em noites insones me alertassem para as armadilhas sempre oferecidas pelo sistema, a cada passo, curva ou rua escura. O sucesso das algemas de ouro calava esses flashes do jovem punk, que inconformado se enterrou nas sobras do coração que escrevia as poesias anárquicas nos velhos cadernos.


Um dia enfim o sistema venceu e foi vitorioso da forma como sempre é, culpando a vitima pela sua própria derrota. Erros podem justificar as quedas, mas não deveriam fundamentar a impossibilidade de se levantar.


Reconheço os erros que me levaram a falhar dentro do sistema, mas o que mais dói é reconhecer que durante um tempo grande demais eu me vendi a ele.


Os destroços da queda fragmentaram o que restava de meu coração. Destes restos sangrentos ressurgiu o ímpeto daquele jovem, não mais com a mesma energia e vigor, mas com a mesma visão anárquica contra os mecanismos de poder e dominação.


Não pense o eventual leitor que me revolto contra ditaduras, democracias, autoritarismos, capitalismos ou comunismos. É mais profundo que isso. A minha revolta é contra a essência do sistema, não apenas essas suas manifestações. Contra a sórdida natureza da humanidade que busca ter, reter e manter o poder através da manipulação de indivíduos e comunidades por sistemas políticos, econômicos, sociais e culturais. A minha revolta é contra o mal que reina muitas vezes disfarçado de benesses e pseudo-cuidados.



Quando os jovens se manifestam pela rebeldia são acusados de que é fácil ser contra tudo sem ter que pagar as suas contas. Mas o real problema dessa rebeldia está apenas na impossibilidade de identificação do verdadeiro mal por trás dos objetos ou sistemas de revolta. A sensibilidade da juventude percebe o mundo errado, mesmo que não saiba exatamente os motivos e não consiga ver os responsáveis.


O auge da minha revolta punk aconteceu quando já pagava boa parte das minhas contas. O amor materno supria o que faltava. Por uns tempos vivi uma dura realidade, morando precariamente, com salário de fome, na grande cidade. A única diversão possível era andar nas ruas do centro, nas noites sujas, ouvindo as bandas podres dos inferninhos acessíveis. Foi quando o punk fez sentido, mesmo que nunca se tenha proposto a dar respostas.


De muitas formas sou um punk nostálgico hoje, um velho punk, meio grunge e um tanto hippie.


Não ando com coturnos, não uso uma camiseta dos Ramones há décadas, nem sempre Sex Pistols e Dead Kennedys tocam nos meus fones, embora The Clash seja habitual. Mas a angustia, a revolta e a repulsa estão aqui, dando nó nas tripas.


As dores são outras mas são as mesmas. Antes mais comunitárias e hoje um tanto egoístas porque acumulo minhas próprias cicatrizes de guerras tantas. A minha revolta era por tudo de ruim que condiciona a vida de todos e hoje preservo tal consciência mas a dor é mais localizada no meu umbigo. Um tanto egoísta, e se me conforto é por sentir que meu poder revolucionário já não arrasta mais ninguém ao campo de batalha e que minha luta agora é única e solitária.


Não terei mais batalhas contra exércitos, mas duelos contra um adversário poderoso, aquele que é a essência do mal, que instiga os métodos de sedução, encanto e aprisionamento na vida que o sistema permite e define, sem que nunca os servos possam alcançar o esplendor da vida que ganharam de presente do Bem.


Muitos gostam da Matrix porque ela lhes reserva um papel de destaque, como uma novela que tem seus elencos definindo todos os personagens, ricos e pobres, felizes e infelizes.

Definições de sucesso e felicidade estabelecidas por aspectos materiais e mecanismos de poder. Ou então por relacionamentos condicionados em grande parte por esses mesmos aspectos, ilusórios desde sempre.


Hoje minha trilha sonora tem menos punk rock e mais blues, mas quem é sensível à dor percebe a mesma essência. A revolta com o sistema vem da dor compartilhada ou mesmo da dor individual, que por ser tão humana é universal. É essa identificação pela dor que nos faz humanos e nada pode ser mais humano do que a dor.


Blues e baladas se tornam veículos daquilo que não expresso. Da palavra presa na garganta, da dor que não se nomeia, da ausência que permanece, da carência que não tem esperança. A música e sua poesia, mesmo presente nas entrelinhas da prosa, é o que traz identificação ao meu coração aflito e soturno.


Assim o sistema sobrevive, porque encontramos alguma forma de canalizar a revolta. Alguns como eu nas musicas e poesias, veículos maiores de expressão dessa dor. Outros nos anestésicos, sejam quais forem: sedativos trazidos pelo entretenimento vão, as ausências causadas por drogas mais pesadas ou ilusões de satisfação pelo materialismo vil e consumo despropositado.


O sistema nos coloca em conflito. Estimula os preconceitos e as divisões, não nos quer irmanados e unidos, pois teme a consciência coletiva e plena. O sistema é o trono do mal, de onde governa nossos interesses, condiciona nossas vontades e limita as nossas potencialidades. Alguns o aceitam por ambição, outros por pura necessidade porque sobreviver é possível.


Mas será que não existe como viver para além de sobreviver?


Só quando percebermos o véu que nos cobre, a realidade que se esconde por trás daquilo que nos ofusca. Nunca seremos uns contra os outros, eu contra você, mas nós contra um mesmo mal.


Alguns serão alistados no exército daquele que tenta nos dominar e não adianta combate-los, porque quanto mais eliminamos soldados como nós que apenas vestem outra farda, mais fraco somos em conjunto. Essa é a maluca falta de sentido dessa guerra: aquele que combatemos verdadeiramente nunca se apresentará ao combate, covarde que é. Enquanto isso seguiremos matando-nos uns aos outros, metaforicamente ou não.


A maior subversão é o amor e o maior punk talvez tenha sido Jesus. Não há arma mais poderosa do que amar e perdoar aos seus inimigos e assim, em amor e perdão, viver a vida diariamente.


O amor é subversivo e amar é revolucionário. Eu decido pelo amor, sempre.

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