Alarmes Falsos pela vida afora

Atualizado: 10 de Out de 2019


De alguma forma este texto se conecta ao que publiquei anteriormente, Uma esperança perdida me trouxe de volta a capacidade de sonhar”, mas são textos independentes.


A vida nos oferece alarmes falsos com frequência, não?


Alguns podem nos colocar em pânico, outros nos encher de esperança. Alarmes falsos que geram boas ou más expectativas, e todas elas podendo trazer resultados bons ou ruins.


Uma vez recebi um resultado alarmante em um exame médico. O resultado do laboratório veio com tal disparidade que tudo indicava um câncer de próstata. Levei alguns dias entre ver este resultado, apresentá-lo ao médico, fazer um novo exame e comprovar o erro do anterior.


Foram dias terríveis imaginando a morte de perto e sofrendo com isso. Mas, em alguns momentos de lucidez, percebi aspectos equivocados da minha vida errada de então. Valorizava coisas que não tinham real valor e deixava de reconhecer a correta importância de outras, como uma presença mais frequente junto a minhas filhas, achando que eu sempre teria tempo para elas.


Eu saí desse alarme falso melhor do que entrei. Se me deixei assustar pelo medo em muitos momentos, este medo me fez refletir e reencontrar alguma lucidez pelas frestas das expectativas ruins.


Alarmes falsos para coisas boas também acontecem. Quantas e quantas expectativas boas tive ao longo de todos estes últimos anos de crise! Recebi muitas notícias de potenciais clientes informando que as propostas estavam praticamente fechadas, projetos delineados e 99,999% aprovados. Muitas negociações excelentes e alinhadas restando apenas uma assinatura formal mas "já estava tudo certo..."


Cada notícia dessas, ou cada alarme falso, trazia novas expectativas e com elas a esperança de enfim retomar o caminho do sucesso nos negócios e da vida próspera. Parecia que tudo seria diferente e que agora sim poderia seguir com o destino fadado ao sucesso daqueles que muito se esforçam.


Mas não. Aquele 0,001% que faltava para a confirmação nunca veio. Assinaturas formais nunca foram registradas. Grandes expectativas de muitas negociações longamente construídas deram em nada.


A possibilidade do câncer trouxe medo e necessários lampejos de lucidez.


As expectativas frustradas de ótimas possibilidades trouxeram desesperanças e frustrações.


Tudo por fim serve como aprendizado, e este é o melhor resultado a extrair destas situações. Mas as expectativas continuamente frustradas ao longo de anos, além de suas terríveis consequências sobre a vida prática, acabaram por extinguir a minha capacidade de sonhar. Meu outro texto fala disso e de como pude recuperar esta capacidade.


Mas então, como reagir às expectativas reais ou irreais, como perceber os alarmes falsos na vida a tempo, antes que provoquem problemas por interpretarmos como real algo que é apenas (ainda) uma possibilidade? E mais, será isso mesmo necessário?


Difícil, não é? Fincar o pé apenas naquilo que é concreto, palpável. Sei que muitos vivem assim, contando apenas com os ovos que já estão na cesta. Para mim, reconheço, é uma impossibilidade. Não consigo evitar ou controlar meus sonhos e devaneios a respeito das coisas, mesmo as com menores possibilidades de acontecer.


Sou assim, levado a paixões imediatas e alucinadas, daqueles que se entregam e mergulham nas coisas que descobre, seja um livro, um conhecimento, uma amizade, um artista novo, uma proposta de um novo projeto, uma nova perspectiva de vida... Antes de qualquer benefício direto e concreto daquilo, já estou profundamente envolvido e tomado por todos os aspectos da paixão que me domina.


Isso me frustra muitas vezes. Nos últimos quatro anos me frustrou na totalidade das vezes. Mas se amplio essa análise para os meus cinquenta e dois anos de vida, na grande maioria dos meus sonhos eu saí feliz, tive sucesso, aprendi e progredi com eles. Fui enaltecido por resultados especiais e experiências encantadoras na maior parte dos sonhos e até em alguns dos devaneios que já tive na vida.


Alguma dúvida de como pretendo seguir adiante?


No texto sobre a esperança perdida” disse que fiquei sem a mínima capacidade de sonhar por muito tempo e que há pouco a recuperei. Não perdi a capacidade de sonhar porque quis e muito menos a recuperei pela expressão da minha vontade. Sem intenção consciente, um sonho incrível cheio de lindas expectativas se impôs de uma forma tão avassaladora que não tive tempo nem de respirar, quanto mais de resistir.


Mas era um sonho impossível, um devaneio. E percebi isso desde o seu início. Por uns segundos apenas temi uma nova frustração. Mas dei uma banana para a minha tentativa de autocontrole e autopreservação... que se dane a racionalidade, quem sou eu afinal se não puder dar vazão aos meus devaneios?



- Eu tentei, vida, tentei de verdade. Tentei ser concreto e racional para seguir a receita da vida normal, certinha e correta. Tentei acreditar que o que me levou à minha derrocada foram os meus sonhos e devaneios irresponsáveis de antes e com isso evitar repetir este erro. Não me acuse do contrário, vida, afinal você me observava a cada momento.



Mas agora...


Agora vejo que não foi a minha capacidade de devanear que errou. Se errei, foi por simplesmente ter sonhado os sonhos errados.



- Vida, eu achei que você me impunha regras. Mas não era você. Quem as impôs foi a sociedade, a crença geral, o sistema, a matrix. Você, vida, apenas quis abrir meus olhos. Hoje eu compreendo. E agradeço.



Quero mais alarmes falsos assim. Quero mais expectativas. Quero mais sonhos. Quero meus devaneios guiando meus passos sem saber aonde eles vão dar. Quero pisar mais areia fofa e menos asfalto firme.


Uns me acham louco, muitos me acham irresponsável. Não tem problema, prezo a liberdade das suas opiniões acima de tudo. Mas não me obrigo nem me subordino a elas.


Meu compromisso é com a vida. E com Deus que está comigo. Ele me deu a capacidade de ser assim, de sonhar, de buscar, de conquistar algumas vezes, de me frustrar noutras. É a Deus a quem devo honrar com a minha vida.


Tomo a liberdade de um entendimento particular para diferenciar sonhos e devaneios. O sonho me permite imaginar algo alcançável mediante o esforço. Algo que posso planejar e empreender a busca pois desde a sua origem traz a possibilidade de sua realização.


Já os devaneios são aqueles que exigem grande imaginação pela sua impossibilidade de concretização. Só um milagre talvez possa realizar o devaneio e até por isso eles são livres, sem censura, sem limite. E tão prazerosos!


O sonho citado no artigo anterior e aqui mencionado se tornou uma esperança perdida, por sua impossibilidade. Mas, desde então, passou a rodar minha mente e coração como devaneio. Não tem mais compromisso com a realidade, mas nem por isso despreza a mínima chance de um milagre futuro.


Enquanto isso, abrindo a chance a novos sonhos, ao devaneio me entrego. Se um sonho pede planos para ser alcançado, um devaneio pede poesias para ser alimentado.


Um dia, quem sabe, publicarei alguns destes poemas a que me entrego nas madrugadas. Hoje renuncio à minha autocensura e vergonha e ouso apresentar uma estrofe de um deles:


“Uma ode aos loucos que se entregam aos devaneios do coração,

Que se encantam com o surpreendente e se surpreendem com o encanto

dos que se permitem simplesmente ser o que são.”


Estou de volta, vida. Vamos sonhar novamente, devanear sempre e alucinar de vez em quando...


........


Falei tanto de música no texto anterior que não poderia deixar de citar algumas canções que inspiraram de alguma forma o presente:


Is it ok if i call you mine? / Paul McCrane

Please, please, please let me get what i want - Smiths

Vuelvo ao Sur – Astor Piazzolla

Volta por cima – Paulo Vanzolini na voz de Noite Ilustrada

Goodbye yellow brick road – Elton John


E a grande trilha sonora dos meus últimos tempos:


Working on a dream – Bruce Springsteen

(essa eu acho que The Boss gravou só pra mim...)

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