Vendavais são inevitáveis, saiba controlar as velas

Atualizado: 7 de Jun de 2019


É curiosa a forma como lidamos com a mudança e a estabilidade. No fundo, a maioria de nós pelo menos em algum momento da vida busca uma condição estável. Um relacionamento estável, um emprego estável, uma carteira de clientes estável, uma condição financeira estável. Falamos muito de mudanças mas na maioria das vezes as aceitamos apenas em nome de uma possibilidade de estabilidade futura.


De alguma forma a humanidade se equilibra, porque uma pequena parcela da população foge da estabilidade e se incomoda com as coisas sendo sempre do mesmo jeito que foram. São os que continuamente buscam o novo e com isso trazem o progresso. São estes inovadores que constroem o futuro que traz benefícios à toda a humanidade.


Os inovadores são essenciais e aprendemos muito com suas qualidades e características, além de termos as nossas vidas beneficiadas pelos avanços que eles conquistam. Mas neste texto quero falar sobre a maioria de nós, pessoas comuns. Nós que buscamos o sucesso em nossas vidas, que temos a estabilidade como um de nossos objetivos, que aceitamos as mudanças e até inovamos dentro de nossas possibilidades, mas que não somos nem pretendemos ser um novo Steve Jobs ou um Leonardo Da Vinci.


Mais do que o exemplo dos grandes revolucionários do conhecimento, tudo à nossa volta nos mostra que a constante na vida é a mudança, não a estabilidade. Nada no universo, na natureza ou em nossas vidas biológicas é estável. Por que então ansiamos tanto por uma estabilidade que não existe e nem poderia existir?


C. S. Lewis tem uma frase que explica de forma transcendental, a partir da visão cristã:


“Se descubro em mim mesmo desejos que nada nesta terra podem satisfazer, a explicação mais razoável é que eu fui feito para outro mundo.”


Talvez na vida eterna tenhamos esta estabilidade almejada e inconscientemente a buscamos aqui na vida terrena, como uma fagulha do paraíso distante.




Mas neste mundo aqui a natureza muda continuamente. As estações do ano se sucedem como as fases da lua ou a noite após o dia. Plantas e animais crescem, vivem e morrem, seus restos se transformam e voltam ao ciclo da vida. Nós nascemos, crescemos, amadurecemos, mudamos todos os dias, querendo ou não. Podemos até permanecer irascíveis em caráter e personalidade, mas isso não impede que nosso corpo mude, que envelheça, que adoeça e que se cure.


Tudo à nossa volta muda o tempo todo, mas ainda assim temos dificuldades em lidar com as mudanças. Imaginamos uma vida estável ou apenas com mudanças sob nosso controle. Uma ilusão arriscada. Controle sobre a vida é uma ilusão e a indústria de seguros está aí para comprovar. Mitigar riscos faz parte da vida, exatamente porque as mudanças nos atingem sem que tenhamos nenhum controle ou intenção.


Vem à mente a imagem de um veleiro em alto mar. Ondas e ventos inevitáveis. Ao velejador cabe apenas controlar as velas, seguindo a rota da melhor forma que puder. Costumam dizer que em um porto o barco está seguro, mas nenhum barco foi feito para a segurança do porto. O barco foi feito para travessias, como nós nascemos para mudar e enfrentar mudanças continuamente ao longo da vida.



Somos feitos para a mudança, preparados biologicamente para enfrentá-las, mas precisamos ter esta consciência e aprender a manejar as velas de nossa vida da melhor forma possível. Precisamos sim de alguns portos seguros em nossa jornada, não como objetivos finais e sim como etapas de uma grande jornada de mudanças contínuas.


Nenhum bom marinheiro se lança ao oceano sem ter se preparado antes. Ele estuda, aprende, treina. Convive com marinheiros experientes e aprende com eles. Tem a consciência de que precisa estar preparado para um ambiente em que tudo muda rapidamente e exige adaptação constante. Águas rasas são diferentes de águas profundas, tempestades são diferentes de calmarias, ventos e correntes precisam ser descobertos ou evitados e as velas precisam ser manejadas em um esforço contínuo, de velocidade variável, de avanço, contorno e progresso.


Desde criança adoro a imagem de liberdade que um veleiro transmite. A ideia de poder ir a qualquer lugar do mundo apenas pela força dos ventos me encanta. Os relatos de Amyr Klink sempre foram inspiradores e se não pude velejar, fiz minhas expedições de motocicleta. Não é a mesma coisa, mas a sensação de liberdade também existe. E mudanças climáticas, nas rotas e terrenos também nos obrigam a adaptação contínua.




Mas não é de aventuras ou expedições que trato aqui. Falo sobre a aventura da carreira de cada um de nós, da nossa jornada profissional, com seus dias ensolarados, suas tempestades, calmarias e portos seguros ou nem tanto.


É necessário aceitar as mudanças como parte da vida, mas ainda mais importante é compreender as dinâmicas da mudança, suas exigências e seus impactos sobre nós. Toda mudança exige adaptação à nova realidade. Aceitamos com naturalidade que o esforço de adaptação exija o desenvolvimento de novas habilidades e isso é verdade. Mas a adaptação também pode exigir que deixemos de lado algumas coisas, abandonando-as ou diminuindo sua ênfase e prioridade. O indivíduo mais adaptado não é o melhor em tudo, mas o melhor naquilo que realmente importa na situação em que vive.


Certos desafios acarretados pelas mudanças inesperadas podem parecer insuperáveis. O desemprego desafia a vida, a personalidade, a identidade de pessoas. Abala famílias, destrói relacionamentos, por mais que a promessa na frente do altar declare “permanecer juntos na riqueza ou na pobreza”. Quando a situação é motivada por uma falência fica ainda pior, com as dívidas acumuladas se tornando impagáveis, os bens sendo perdidos, o fracasso algemado na alma, com o peso insuportável de correntes de dor e frustração. É difícil para a família conviver com o fracassado, reconheço. Mas é mais difícil ainda ao fracassado conviver com ele mesmo.


Vi meu pai enfrentar ambas as situações, desemprego numa época e falência anos depois. Sofreu muito, depressivo que era sem ter sido diagnosticado. Sobreviveu na primeira, mas não escapou na segunda. O fracasso venceu, e ele não soube conviver com a mudança que lhe foi imposta pela dureza da vida.


Enfrento situações de mudanças assim na minha própria vida e procuro me reinventar, buscando novos caminhos profissionais. Graças a Deus hoje existem terapias e tratamentos antidepressivos que nos ajudam a levantar da cama, mesmo em dias frios e chuvosos na alma. E penso que se tenho esta chance, que eu possa viver de acordo com meus princípios e ideais. E meu ideal é ajudar pessoas a enfrentar mudanças, a se preparar para as inevitáveis transições em suas vidas, algumas buscadas, outras fortuitas.




Aprendi sobre muitas coisas lendo os livros do Amyr Klink. Lições fundamentais sobre planejamento e sobre como enfrentar as adversidades previsíveis da vida. No livro “Cem dias entre céu e mar”, em que ele descreve a travessia do Atlântico num barco a remo, ele conta que uma das grandes dificuldades de um pequeno barco na travessia de alto mar eram as enormes ondas que viram o barco. Até então os projetistas tentavam construir barcos que não virassem com as ondas, mas Amyr e seu projetista decidem pelo contrário: fariam um barco que virasse com as ondas, mas com um design que desvirasse sempre que ocorresse, concluindo uma incrível cambalhota. Da mesma forma, quando planejou a invernada na Antártida com o primeiro veleiro Paratii, no livro “Paratii entre dois polos”, enfrentou o congelamento do oceano, terror dos barcos nos mares nos polos com um casco feito para suportar o congelamento das águas e o aprisionamento no gelo, não para evitá-lo.


Assim como as ondas em alto mar ou o gelo das regiões polares, fatores inevitáveis trarão mudanças em nossas vidas, que destruirão as ilusões de estabilidade. Fatores inevitáveis e portanto que podem ser previstos. Ter bons seguros ajuda, mas o melhor é ter a consciência da inevitabilidade destas mudanças e o espírito preparado para enfrentá-las. Não adianta ter o barco perfeito se o marinheiro não souber manejá-lo.

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