Seremos pessoas melhores?



Tenho certeza que sim para muitos e tenho certeza que não para outros tantos.


Muitos de nós teremos passado por processos de amadurecimento e de autoconhecimento provocados pela situação. Muitos outros apenas terão sobrevivido. Alguns terão enfrentado tudo com passividade, outros com agressividade e revolta.


Aprender com as adversidades depende de uma disposição pessoal. Precisamos estar dispostos ao aprendizado. A adversidade acontecerá, de uma forma ou outra. A situação atual mostra que muitas vezes não depende em nada daquilo que somos ou fazemos. O mal acontece e pronto. O que fazemos com ele é o que faz a diferença.


O livro de Jó talvez tenha sido o livro que mais vezes reli na Bíblia. Foi muito difícil para mim começar a compreende-lo. E acho que ainda o estudarei por muitos anos para entender plenamente o seu significado. O fato é que o mal existe e isso não muda o caráter de Deus. “Aceitaremos o bem dado por Deus e não o mal?” (parte do versículo Jó 2:10) é um trecho que me instiga continuamente, ainda mais nesse tempo.


Todos temos autonomia para decidir como lidar com a adversidade. Muitas vezes não podemos fazer muita coisa do ponto de vista material ou físico. Também muitas vezes não conseguiremos manter o nosso ânimo elevado. As pressões são fortes e é difícil resistir a elas.


O que está ao nosso alcance é buscar a serenidade e a paz. A conexão com a transcendência é a melhor forma de fazer isso. Seja qual for a sua fé, busque a conexão com o sagrado, com aquilo que está além de nós. Se não há o que fazer, apenas aceite e siga em frente.


É fácil? Não.


Mas é possível.


Você pode falar: “Ah ok, mas você está ai vivendo sozinho, pode se dar ao luxo de meditar em silêncio. Queria ver você ser “zen” com três crianças gritando pela casa, fazendo faxina e comida para todo mundo e ainda aguentando meu chefe em calls intermináveis.”


Tem razão. Eu não sei o que dizer a você a não ser que é uma guerreira e espero que sua situação fique mais leve.


Mas o fato é que todos nós lidamos com as nossas próprias características, deficiências, forças, fraquezas, condições boas e más. E ao fim de tudo cabe apenas a nós mesmos aprender a lidar com isso de acordo com o que a própria vida oferece.


Jó perdeu tudo, mas não a sua fé. Já conheci ricos e pobres que mantiveram a sua fé durante adversidades. Milionários e mendigos que sabiam se conectar ao seu sagrado. E outros que não. Não é a condição de vida que faz a diferença, mas a disposição para a vida.




A conexão com Deus não depende de horas de oração. Você pode ter apenas cinco minutos no seu dia, mas se pensar Nele com verdade, honestidade e confiança terá a conexão, a comunhão com o sagrado. Sua oração pode ter palavras ou ser apenas silêncio, o que importa é o seu coração ligado a Deus.


Sou cristão, respeito todas as crenças, mas só tenho legitimidade para falar da minha. Cinco minutos de conexão silenciosa e verdadeira com Deus tem mais comunhão do que horas de orações com palavras bonitas repetidas sem que o coração esteja nelas.


Com o tempo aprendi a desenvolver um estado de comunhão, um estado continuo de oração. Nesses momentos evito pensamentos ruins ou negativos e vou conduzindo o meu dia e as minhas atividades mantendo Deus ali do lado, trocando ideias com Ele de vez em quando. Não é uma oração formal, mas é um estado de comunhão. Ele sempre está comigo, mas nem sempre eu estou com Ele. Há anos venho me exercitando para isso e hoje consigo com certa facilidade me manter nessa conexão transcendente enquanto meu dia acontece, seja com isolamento social ou não.


Sairmos melhores dessa situação ou ainda, sermos pessoas melhores, depende apenas de nós mesmos, não das circunstâncias. Muito menos do governo, do chefe, do emprego ou do dinheiro.


Alguns de nós conseguirão se tornar pessoas melhores. Vários já estavam nesse caminho e prosseguirão em suas jornadas e outros já começam a ter uma nova percepção sobre as coisas que realmente importam na vida.


Mas muitos outros não. Pessoas que estão atoladas em problemas, em dívidas impagáveis, empresas quebrando, perdas acontecendo. Todos esses danos reais os impedem de se conectar à transcendência.


Precisamos de compreensão com essas pessoas e se tivermos contato com alguém nessas condições deveremos acolher sem julgar, simplesmente oferecer um colo e um abraço virtual. Vamos ouvir as suas dores e se houver espaço e oportunidade apenas orar com elas. Se não tiver esse espaço, que nossa oração silenciosa as alcancem.


Individualmente é assim, uns vão lidar melhor que outros. Mas e de forma geral?


Grandes eventos mudam a trajetória da humanidade. Nas pestes anteriores foi assim, mas também nas guerras, nas crises profundas ou em eventos como maio de 68 e o ataque às torres gêmeas. O mundo mudou a partir desses eventos, para o bem e para o mal.

Nem tudo é imediato, cada um desses episódios traz mudanças visíveis e lança sementes de mudanças que só germinarão anos depois.


A pandemia hoje nós mostra claramente que não somos um punhado de países, mas uma única aldeia global. Podemos ter bandeiras e idiomas diferentes, mas somos um povo só. Cor da pele, religião, orientação sexual, preferência esportiva ou posicionamento político, fama ou anonimato, riqueza ou pobreza não fazem a menor diferença. O vírus ignora a todos os rótulos e nos ataca simplesmente por sermos humanos.


E humanos é o que somos, irmanados pelas nossas fragilidades.


As pessoas mais esclarecidas vão defender cada vez mais essa visão de integração entre a humanidade. Mas os interesses mais apegados ao materialismo e a uma visão mais restrita da vida irão se contrapor, reforçando fronteiras e barreiras, estimulando o preconceito e a xenofobia.


Minha futurologia não vai além disso. Seremos muito melhores em muitos aspectos mas também muito piores em muitos outros.




Mas seremos diferentes e muitas sementes terão sido lançadas. As crianças do mundo estão vendo a fragilidade de sistemas e governos e o quanto a sociedade pode ser afetada por um simples evento. Acredito que nossas crianças vão questionar com vigor as fronteiras imaginárias que nos separam.


Materialistas que somos muitas vezes nem damos valor a arte. Mas hoje nos refugiamos no YouTube em busca das nossas músicas favoritas, assistimos séries e filmes, visitamos virtualmente museus e redescobrimos livros queridos ou novos autores.


A arte é mais uma das coisas que nos conecta como seres humanos e tem sido um dos bálsamos desses tempos. O artista se conecta com as dores do mundo e as transforma em arte. Não deve estar sendo fácil para os que tem a alma sensível. Precisamos apoiá-los.


Também estamos valorizando o trabalho de profissionais que pouco dávamos importância. Não apenas os da Saúde, verdadeiros heróis cujo heroísmo só é reconhecido em tempos assim. Mas também nossos lixeiros, carteiros, entregadores, pessoal de restaurantes e supermercados, pessoal de tecnologia, todos os envolvidos na logística e na produção.


Essas pessoas não aparecem nas capas das revistas de negócios ou de celebridades. Seus seguidores nas redes sociais são algumas dezenas de amigos, familiares e conhecidos. Não fazem sucesso, não tem fama. Mas sem eles nossa sociedade teria ruído miseravelmente.


Amanhã ou depois tudo vai passar. Pode ser que não voltemos tão rapidamente aquilo que consideramos a vida normal, mas certamente nada mais será como antes. Muita coisa não depende de nós, mas a forma como vamos lidar com todas essas coisas depende. É a nossa autonomia e vontade que irão definir como vamos lidar com toda a situação, com a crise que virá, com o desemprego, a falta de grana, a dor da perda de pessoas que amamos.


Pessoalmente minha grande crise começou em 2015 e durou anos. Em muitos aspectos me preparou para o que enfrentamos hoje. O que me ajudou foi a minha conexão com o sagrado, a minha fé e a grande descoberta de um Deus próximo e verdadeiro, não apenas aquele “de ouvir falar”.


Como disse Jó e nisso me igualo a ele, “Meus ouvidos já tinham ouvido a teu respeito, mas agora os meus olhos te viram.”(Jó 42:5).


Coragem. Quem você se tornará após tudo isso passar só depende de você.







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