Quem acolhe não julga. Se julga, não acolhe.



Este tema anda rondando minha cabeça há tempos. Resisti muito a encarar uma página em branco e preenchê-la com as palavras adequadas. E por mais tempo ainda hesitei em rever o texto e publicá-lo.


Escrever em situações assim não é uma opção mas uma compulsão. Enquanto não coloco as palavras necessárias sobre um tema que se impõe ele fica incomodando o pensamento. Vai e volta, como se clamasse pela liberdade a ser obtida pelo texto lançado ao mundo.


Aqui está o resultado, portanto, obtido em inúmeras idas e vindas nesse arquivo até que me decidisse pela sua libertação. Podem entender como um desabafo, prezada leitora e caro leitor. Escrevo sobre o que vivo e nem sempre o que vivo é lá muito agradável.


Enfrentei situações assim muitas vezes e em muitas delas vivia uma fragilidade emocional que tornava tudo ainda mais doloroso e cruel.


Acolhimento é uma palavra linda, mágica, terna. Na sua essência traz carinho, respeito, compreensão e uma sensação de serenidade e paz.


Sem considerar os aspectos judiciais da coisa, julgamento por outro lado é uma palavra dura. A mim traz indícios de repreensão, incompreensão, rejeição, acusação.


Peço perdão aos advogados e juristas, que podem ter a ideia de justiça sendo feita em julgamentos formais. Mas não é do processo legal que falo, mas da humana e tola necessidade de nos julgarmos uns aos outros continuamente.

Acolher de verdade exige não julgar ao acolhido.

Se você pensa que acolhe e ainda assim julga, lamento. Você pode ter feito muita coisa boa e caridosa do ponto de vista físico, material e social, mas emocionalmente você rechaçou a pessoa.


Quem julga não acolhe de verdade e não existe acolhimento sem que este seja pleno. Não se acolhe em parte, ou se acolhe plenamente ou não.


E não pensem que o julgamento exija uma manifestação verbal. Quem julga manifesta a desaprovação em seu olhar e em seus mais simples gestos. É praticamente impossível a hipocrisia (outro defeito grave) disfarçar um julgamento no trato com outra pessoa.


Passei por isso é claro.


Acreditei no acolhimento de mãos que se estendiam com discursos bonitos e afáveis. Aceitei a ajuda de bom grado, compartilhei momentos especiais, confiei, procurei retribuir e agir assim com outros. Finalmente, no meio de tanta dor atravessada, um tanto surpreso acreditei que havia sido acolhido.


Mas essa impressão foi só a primeira parte do filme. Tudo ameno, tranquilo, animador e amigável até que a verdade se revelou.


A verdade se mostra de formas variadas, algumas discretas e sutis, como uma palavra solta aqui e ali e aos poucos você vai percebendo uma estranheza. Sente, mais do que realmente percebe, algo estranho no ar. Mas em outras vezes a verdade se escancara inesperadamente e o julgamento se revela duro, cruel, insensível.




Isso acontece com pessoas, mas também com instituições.


Institucionalmente as coisas ocorrem de uma forma um pouco distinta, mas tão grave quanto. E estou tratando como instituição a qualquer organização: a empresa, a faculdade, a associação, a igreja, o clube, seja o que for.


Os bons discursos de propaganda e as políticas motivacionais vão afirmando como a instituição é legal. Mas um dia a inevitável verdade começa a aparecer. Ela dá as caras por trás das cortinas, nas frestas das portas, nos comentários que vazam em horas impróprias, nos comportamentos que traem os discursos e revelam preconceitos. A disposição de julgar não se disfarça continuamente.


Em empresas vi muitos casos de profissionais competentes e geradores de resultados consistentes sendo julgados por suas peculiaridades culturais, comportamentais e ideológicas. Para algumas organizações não basta ser um bom profissional e gerar resultados de forma lícita e consistente: o indivíduo precisará também seguir uma “cartilha” que define como pensar, agir e votar.


A promessa de acolhimento se esvai quando essa verdade se impõe. E ela irá se impor, porque o poder da verdade é impossível de ser obstruído eternamente.


Sabemos que todos somos imperfeitos. Temos nossos erros, nossas fraquezas, nossas manias, nossos defeitos. Nossos pecados, enfim. Julgar é considerar o erro ou defeito do outro como algo inaceitável. Ou considerar o outro inferior a nós, simplesmente porque ele “erra diferente”.


Eu não posso me sentir acolhido com todos os meus erros, defeitos e pecados se outros ao meu lado não são aceitos simplesmente por terem outros erros, defeitos e pecados. Que brincadeira é essa?


Quem acolhe deveria fazê-lo simplesmente porque o outro é uma pessoa que precisa de acolhimento. Toda pessoa tem suas características positivas e negativas e todos uma hora ou outra necessitarão de acolhimento. Quem tem o direito de julgar se uma pode ser acolhida e outra não?


Não vou colocar nos pratos de uma balança um estuprador e um caluniador esperando que tenham peso equivalente. Não se trata disso. Não vou propor que todos os erros e pecados tenham o mesmo peso e importância. É para isso que serve o nosso sistema judicial. Em última instância, aos que creem, ambos serão julgados por Deus.


Acolher a um criminoso é uma habilidade especial, um dom. Admiro as pessoas que dão assistência nas prisões, profissionais ou voluntários, religiosos ou não. Esta é uma qualidade estupenda, da qual sou totalmente incapaz.


Escrevo sobre o nosso dia a dia. Almoços de domingo em família, quando começa a fofoca sobre uns e outros, sabe? Quando falamos daquele parente afastado, da sobrinha maluquete, do primo beberrão, do tio encostado, da vizinha que berra com os filhos.


Julgamentos. Como se fôssemos peças perfeitas colocadas por Deus na Terra para sermos exemplos de retidão.


Falo aqui também sobre nossas igrejas. Onde os pecados de ordem sexual assumiram uma relevância muito maior do que os pecados decorrentes da falta de servir a um necessitado. Um adultero pode ser rechaçado, enquanto um empresário rico e sovina pode ser paparicado. Ou uma garota de cabelo azul pode ser olhada de cima abaixo, por despertar dúvidas sobre sua sexualidade, mas um irmão vestido adequadamente e polido que não manifesta amor em nenhum de seus relacionamentos pode ser um membro respeitado.


Em muitos lugares a mensagem do amor ao próximo se perdeu em meio a discursos empolados. O exemplo do bom samaritano que acolhe e trata um desconhecido não é compreendido. Jesus conversando com a mulher samaritana na beira do poço não é entendido como um exemplo de não julgamento. Muitos se lembram de Jesus assumir ser a água viva, mas poucos se lembram do respeito com que Ele tratou a mulher, talvez mais surpresa pela consideração recebida do que pelas palavras que ouviu.




Talvez não tenhamos a capacidade que muitos tem de cuidar das pessoas. Não somos capazes de ir aos presídios dar alguma atenção aos condenados, talvez não consigamos levar uma sopa aos moradores de rua nas noites frias. Tudo bem se for assim, nem todos temos esses dons.


Mas podemos ser pessoas melhores no dia a dia. Podemos recusar participar dos comentários dolorosos nos almoços de domingo, não criticar as meninas de cabelo azul na rua ou na igreja e não julgar as pessoas que aparecem ao nosso lado mergulhadas em problemas.


Ninguém está triste porque quer. Depressão não é uma escolha. Fracassos acontecem independente da capacidade e honestidade da pessoa. Pode ser impossível continuar um casamento sem que essa decisão de separação seja pior do que os erros que a definiram.


Sinceramente, se você não quer acolher a uma pessoa com dores e problemas, tudo bem. Não acho que você seja obrigado a nada, pois se for apenas por uma obrigação não será genuíno. E amor ao próximo exige genuinidade.


Não devemos interpretar a recomendação de amarmos uns aos outros como uma ordem religiosa. Quem entende assim não entendeu nada.


Mas se decidir fazê-lo não finja acolher enquanto julga, mesmo que apenas na reserva de seus pensamentos. A pessoa que sofre acabará percebendo o olhar enviesado ou o tom de voz disfarçado. Terá seu sofrimento agravado e sua desesperança aumentada e essa responsabilidade será toda sua.


O coração que dói só precisa de outro por perto batendo no mesmo ritmo. Nada mais. As batidas dobradas fazem eco na alma, compartilham o calor dos corpos, trazem refúgio nas dores, são abrigo em noites de tempestade.


Acolher é abraçar e abraçar é aproximar um coração ao outro.


Acolher é ter um coração prestes a entrar em sintonia com aquele que precisa. É amar antes, sem nem conhecer o sujeito do amor. É amar indiscriminadamente a uns e outros, predisposição de vida em servir e amar.


Acolher é perdoar antes, reconhecendo que todos somos falhos em nossa natureza humana. Meu erro pode ser diferente do seu, mas é tão erro quanto. Minha fraqueza pode ser diferente da sua mas me faz tão imperfeito quanto você. Nossas condições podem ser distintas, mas nada justifica que eu lhe julgue ou por você seja julgado.


Estamos todos certos e incertos pela jornada que é a vida. Só existe um caminho, mas é muito difícil seguir por ele sem desvios ou sem errar uma vez ou outra. O único julgamento que conta é o que nos espera ao final, pois a porta lá é estreita.




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