(quase) afogado pelos sonhos

Atualizado: 26 de Out de 2019



Sabe quando a vida te dá uma pancada, você fica desnorteado e tudo o que você quer fazer é falar com alguém?


Aí você pega o celular, abre o WhatsApp, rola todas as suas conversas na tela e não acha com quem falar. Muitas pessoas não te entenderiam, várias te julgariam, poucas te ouviriam, raras as que acolheriam. E estas todas envolvidas em suas próprias dores e lutas, atravessando momentos bons ou ruins em que seria injusto procurá-las.


As pancadas que recebo são os finais de sonhos acalentados por uma vida. Sonhos que visualizo como um lindo veleiro navegando por um belo oceano azul em um dia ensolarado.


Um dia o céu ficou cinzento. Ventos fortes, correntes, ondas crescentes. A tempestade chegou e se instalou... por anos. Mar encapelado, ondas gigantescas amedrontadoras, ventos terríveis, velas esfaceladas e eu no leme, na ilusão de algum controle.


Fui sendo jogado de um lado para o outro, tentando chegar a algum lugar, qualquer lugar. Não guiado mais por bússolas e gps, tampouco por mapa ou destino.


Eu queria apenas a paz de uma calmaria, que os ventos cessassem, que as ondas amenizassem e que o sol novamente brilhasse.


Um dia isso pareceu possível: os ventos começaram a diminuir, vi umas gaivotas no céu e com elas a esperança de uma trégua.


Mas não.




Quando ainda experimentava um pequeno relaxamento uma onda veio e me jogou ao mar. Sem uma corda, sem colete salva-vidas.


Vi o veleiro se afastar, inalcançável, seguindo ele próprio seu destino do qual percebi que fui apenas uma carona.


Imaginei o fim mas uma força inexplicável dizia “ainda não”.


O mar se revoltava novamente e as ondas cresciam. Flutuando em uma delas avistei uma boia ao longe. Nadei loucamente até a boia e tentei alcançá-la. Estiquei meu braço em sua direção, cheguei a tocá-la com a ponta dos dedos mas ela escapou. E escapou. E escapou.


Até que uma última vez coloquei todas as forças restantes numa desesperada tentativa de elevar meu tronco das águas, esticar o braço e a agarrar com firmeza.

Não deu.


A boia recusou meu abraço, desesperado que fui ao seu encontro. A força da minha tentativa a empurrou longe. Preferiu enfrentar a sua própria parcela na tempestade sem carregar o meu peso que por fim a afundaria também.


Desisti dessa vã esperança. Este último esforço exauriu minhas forças físicas mas de certa forma renovou minhas energias. O corpo sente e fraqueja, mas a mente viaja liberta da força das ondas presentes, mesmo com o frio pungente na alma e coração.


Não sei ainda como será mas de alguma forma isso vai passar.


Não resisto mais, não nado mais. Me deixo boiar, flutuando, subindo e descendo as ondas que parecem montanhas intermináveis.


Em algum momento o vento irá diminuir, as nuvens irão embora e o céu azul voltará a aparecer. Talvez uma outra boia apareça, talvez um barco me encontre, talvez eu dê em alguma praia desconhecida por fim.


Quero colocar meus pés em terra firme. Quero uma cama confortável, uma comida quente e uma xícara de café.


Mas só pelo tempo necessário para encontrar outro veleiro e nele embarcar. Posso apanhar da vida e naufragar dos sonhos, mas não posso mais viver sem ser o que sou.


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