Gancedo: uma história sobre confiar nas pessoas

Atualizado: 12 de Ago de 2019



Esta publicação é diferente de meus artigos tradicionais. Decidi publicar um dos capítulos do meu livro ainda não lançado.


É uma história de resgate da confiança nas pessoas. Espero que gostem.


Introdução ao capítulo (para contexto)


Com todos aqueles problemas decidi por uma última viagem de moto para rever amigos na Argentina e, quem sabe, chegar ao Atacama de novo. Eu sabia que logo iria ter que vender a moto e não tinha a expectativa de comprar outra tão cedo.


Mais uma vez eu havia sido traído por pessoas em que confiava cegamente. Mas eu mal sabia que viveria uma experiência que me faria recuperar a fé na humanidade...


Eu já havia feito várias viagens de moto pelo interior e norte da Argentina e Chile. Sempre sozinho. Viagens inspiradas pelos livros do Amyr Klink, que adoro. Não considero aventuras, mas viagens cuidadosamente planejadas. Minha bagagem sempre está dividida em três partes de carga equivalente: peças e ferramentas para manutenção da moto, equipamentos de segurança e de emergência, e bagagem de artigos pessoais.


Nunca tive acidentes, apenas alguns percalços. Pequenos problemas com a moto logo resolvidos. Sempre fui um motociclista cuidadoso e tive muitas experiências em estrada e fora dela, em incursões offroad. As viagens funcionavam como válvula de escape e uma de minhas manias era deixar tanto a moto quanto as bagagens e equipamentos sempre prontos para uma nova viagem. Quando em situações desgastantes no trabalho, me reconfortava imaginar que poderia subir na moto na manhã seguinte e ir até os Andes. Mas a viagem anterior tinha sido especial, por vários motivos. Preciso relatá-la antes de avançar na história da última viagem.



GANCEDO


A viagem anterior, dois anos antes, não foi realizada por lazer. A sede de liberdade e a vontade de pilotar muitos quilômetros por vários dias pouco importavam. Meu objetivo desta vez não era usufruir de momentos divertidos ao percorrer as estradas andinas de moto. Eu estava fugindo.


Vivia novamente momentos muito complicados em minha vida profissional. Pessoas em quem eu mantinha total confiança se mostraram indignas deste apoio. Os problemas profissionais decorrentes não foram poucos, mas o pior foi a dor da traição e o reconhecimento do erro de ter mais uma vez confiado cegamente em pessoas. Isso me doía profundamente.


Para a empresa o resultado foi terrível. Fui obrigado a fazer várias demissões, tivemos muitos retrabalhos, atrasos e gastos adicionais com aquilo que já deveria estar pronto. Nem eu nem ninguém da equipe saímos ilesos desta situação. Tenho certeza de que muita coisa poderia ter sido feita de outra forma, mas não foi. Todos somos humanos e erramos. Hoje sei o quanto errei e o quanto outros erraram também.


Havia decidido por esta viagem logo após a identificação do problema, pois eu precisava me isolar para pensar em como enfrentá-lo. Entrei em uma crise profunda de descrença nas pessoas. Já não era a primeira vez, e nem foi a última, como experimentei várias vezes depois, onde pessoas em quem depositara total confiança agiram de forma contrária e desleal. Durante anos fiz um enorme esforço buscando criar um ambiente de trabalho baseado em liberdade e confiança, onde tudo pudesse ser tratado abertamente, com todos contribuindo livremente e compartilhando resultados. Porém, novamente questões egoístas e mal-intencionadas vinham à tona e mais uma vez a imperfeita natureza humana se apresentava. Minha vontade era largar tudo, mas eu ainda tinha responsabilidades com os funcionários leais, com parceiros e com clientes.


A situação foi identificada após muitos meses de trabalho intenso e de negociações complexas com sócios e parceiros, para a construção de uma nova realidade para a empresa, fundamentada em tudo o que havíamos construído ao longo dos anos. Uma vez identificado o problema e já sabendo que as decisões seriam custosas, antes de agir resolvi dar um tempo. Parar uns dias não agravaria mais a situação e agir sobre o calor da emoção parecia arriscado. Eu realmente precisava parar.


Os preparativos foram rápidos, pela experiência das viagens anteriores, pelos equipamentos que tinha e por manter a moto sempre em condições para a estrada. Resolvi seguir um roteiro já conhecido, com pequenas alterações. Sairia do Brasil por Foz do Iguaçu e seguiria direto para San Pedro de Atacama, com algumas escalas para descanso, pois eu ansiava pelo isolamento das montanhas e do deserto. De lá, desceria para Salta e depois para algumas cidades argentinas que ainda não conhecia, principalmente porque iria trocar os pneus da moto numa concessionária KTM em San Miguel de Tucumán e aproveitaria para conhecer as Termas do Rio Hondo.


O início da viagem foi terrível. Além da cabeça atormentada pelos problemas, durante os quatro primeiros dias desde a saída de São Paulo até minha chegada em Corrientes peguei chuva intensa durante quase todo o tempo. A visibilidade era terrível, a viseira do capacete embaçava, mesmo ventilada. Eu pilotava de forma agressiva, pois a raiva me guiava. Nas estradas esburacadas do Brasil a chuva aumenta muito o perigo, pois cada poça pode esconder uma cratera. Nas ótimas estradas argentinas este risco quase não existe, mas muitas estradas estavam em obras, obrigando a desvios em terra, com lamaçais imensos para uma moto carregada de bagagens. A chuva sempre é incomoda, mas nada supera o desconforto de você acordar cedo e ter que vestir a roupa de moto gelada, ainda encharcada da chuva do dia anterior e enfrentar novamente a estrada debaixo de temporal. A chuva era forte e contínua, e a previsão era de vários dias seguidos nesta condição. Não havia alternativa a não ser seguir em frente. Fugia de meus problemas e esperava fugir dos temporais também.


Após Corrientes o tempo melhorou e a viagem seguiu tranquila. Fiquei uma noite em Salta, cidade que adoro e meu ânimo melhorava. Em seguida, atravessei a incrível Cordilheira, pelo deserto. Fiquei três dias por lá, sentindo a proximidade com Deus. Minha experiência nos Andes sempre foi transcendental. A alta altitude das montanhas no Atacama é um cenário agressivo com ar rarefeito. Enorme variação de temperatura, de 10ºC negativos a noite a mais de 45º de dia. Em várias regiões da altitude não existe uma mínima erva, apenas areia, pedras e um céu deslumbrante. Mas ali eu me sentia perto de Deus. Sentia que qualquer erro ali poderia ser fatal e talvez esta proximidade com a morte fosse uma forma de sentir a espiritualidade aflorar. Não sei ao certo, mas ali eu orava profundamente, mesmo na minha religião pessoal e fragmentada de então.


Após a primeira parte da Cordilheira, chega o altiplano. Ali a neve do degelo dos picos elevados alimenta pequenas lagoas e a vida aflora. Vegetação rasteira, aves, vicunhas, alpacas, guanacos e lhamas. Pequenas lebres e lagartos. Animais vivendo livres pelo deserto, atravessando as estradas e pastando às margens destas águas.


O deserto sempre me atraiu. Momentos intensos de solitude e meditação. De apreciação dos enormes horizontes pontuados de picos nevados e vulcões, de admiração do azul infinito de dia e do universo exposto despudoradamente à noite, exibindo milhões de estrelas e constelações.


Meu destino era chegar em San Pedro do Atacama. É uma cidade sempre em clima de férias, com pessoas de toda a parte do mundo. A pequena cidade fica num oásis do deserto, a 2.400 m de altitude. É o ponto central para explorar o deserto e seus restaurantes ao longo da Calle Caracoles tem ótima comida e agências de passeios.


Após poucos dias no deserto, retorno para Salta, a encantadora cidade do norte argentino e sigo para trocar meus pneus, encomendados previamente em uma concessionária KTM em San Miguel de Tucumán. A Argentina vivia mais um dos seus difíceis períodos econômicos, com graves problemas de abastecimento de energia e combustíveis, além de problemas nos sistemas de telefonia, fixa e celular por toda a região norte.


Após a troca de pneus e uma pequena revisão na concessionária, decidi retornar a rota para o Brasil atravessando um trecho pouco movimentado da Província do Chaco. Pretendia fazer cerca de 700 km nesse dia, até Corrientes, mas tive vários problemas para abastecer e estava muito atrasado na minha previsão. Ao final da tarde, cerca de 400km de onde havia saído pela manhã, o pneu traseiro recém trocado se esfacelou, soltando alguns gomos e abrindo um rasgo.


Estava num trecho no meio do nada. Na última hora havia cruzado apenas com um carro nesta estrada pouco movimentada. Por sorte eu não havia caído. Tirei a moto da estrada e fiquei por uns 10 minutos paralisado, sem saber o que fazer. Meu celular não tinha sinal e não passava ninguém. E a noite logo chegaria.


Eu estava levando a moto para escondê-la atrás de umas árvores quando vejo uma camionete se aproximando. Dois agrônomos estavam inspecionando plantações por ali. Ofereceram ajuda, mas ainda precisavam visitar um campo nas imediações e se comprometeram a voltar em uns 40 minutos. Assim fizeram. Colocamos a moto e todas as bagagens na camionete e fomos até a próxima cidade, onde viviam. Gancedo é uma cidade com cerca de 4 mil habitantes cuja maior atração é um parque com partes do segundo maior meteorito já encontrado em nosso planeta, que caiu há cerca de 4 mil anos.


Eu nunca teria conhecido esta cidade e este meteorito se não fosse por este incidente. Mas o que aconteceu ali foi muito mais do que uma visita de turismo.


Era uma sexta feira e não foi possível encontrar outro pneu como este em toda a Argentina. Meus auxiliadores, Cristian Fernando Gomez e Javier Zorzon se desdobravam para me ajudar. Com os problemas telefônicos na região, fomos até o escritório em que trabalhavam na cidade e ficamos ali até tarde, eles telefonando e buscando na internet alguma solução. Mas motos grandes são raras na Argentina e não havia solução disponível. Entrei em contato com a concessionária em que havia trocado os pneus. Eles não tinham nenhum outro, pois só tinham estes que eu havia encomendado antes de sair de viagem. E o pior, toda a equipe da concessionaria tinha sido deslocada para uma competição na Patagônia, a centenas de quilômetros dali. A única coisa que consegui foi que me enviassem os pneus antigos que ali eu deixara. Após muita insistência levaram estes pneus até a rodoviária e os despacharam através da empresa de ônibus que atendia a região. Mas os pneus só chegariam na noite de domingo.


Eu iria passar ali todo o final de semana, sem celular. Meus resgatadores me levaram a um pequeno hotel a beira da estrada, o único da cidade. O calor era insuportável e eu me sentia no inferno mesmo. A viagem que seria para relaxar agora me deixava irado com a situação. A noite foi horrível, com muito calor e mosquitos, não me entendi com o colchão nem com o travesseiro. Muito menos comigo mesmo.


No dia seguinte, logo cedo, o dono do hotel, um senhor já bastante idoso, muito gentil e com uma pronúncia de um espanhol que eu pouco conseguia entender, bate na porta do quarto me chamando para um café. Eu pouco havia dormido, não queria nem levantar da cama, mas não pude recusar e fui. Na noite anterior ele havia feito com que eu colocasse a moto dentro do restaurante, porque dizia que não poderia ficar no relento, na beira da estrada, por risco de roubo. Fui lá olhar novamente aquele pneu sem acreditar na desgraça.


Logo o Cristian chegou. Vinha me avisar que realmente não haviam encontrado nenhuma outra solução em nenhuma outra loja de pneus. Nem em Buenos Aires, a mais de mil quilômetros de distância tinham encontrado o pneu que eu precisava. Tomamos o café juntos e ele me convidou a conhecer a cidade e o parque do meteorito. Passamos assim a manhã, ele me mostrando as coisas, orgulhoso de sua cidade e me contando sobre a sua vida. Casado, tinha um filho pequeno e sua esposa aguardava o nascimento de sua filha, ainda no meio da gravidez.


De volta ao hotel, cujo único hospede era eu, almocei com a família do proprietário. Sua senhora, que cuidava da cozinha e da limpeza, suas três filhas, que dirigiam vans e micro-ônibus entre Gancedo e as cidades próximas. O senhor dono do hotel, que Cristian chamava de Paco, embora já bem velhinho, sozinho construía paredes na parte de trás do terreno, fazendo novos quartos.


Após o almoço fui fazer a siesta, pois não tinha nada mais a fazer mesmo. No meio do sono pesado da tarde, ouço fortes batidas na porta. Meio atrapalhado abri a porta e vi um alemão com um sotaque carregado, falando rapidamente num misto de espanhol, inglês, francês, português, alemão e sei lá mais quantas línguas. Sonolento e um tanto atordoado, só consegui entender que ele queria consertar minha moto. Ele ficou sabendo de minha história num posto de gasolina por ali e queria me ajudar. Levei-o até a minha moto, ele olhou, inspecionou o pneu. Soturno, me disse que não poderia fazer nada para me ajudar. Mas abriu um sorriso e falou, em seu sotaque próprio: então vamos tomar cerveja!



O alemão viajava numa Harley Davidson 1958 que havia restaurado. Eu numa KTM Adventure 990 nova, com GPS e cheio de equipamentos, sem poder andar. Ele, com esta Harley antiga, uma mala saco daquelas de militares toda surrada, amarrada de qualquer jeito e com uns mapas de papel todo rabiscados. Tive a perfeita noção de ser um tolo ali.


Uwe Illgner era o nome dele. Já viajara pelo mundo todo de moto, desde os anos 70, inclusive indo da Alemanha até a Índia, atravessando países conturbados. Tinha percorrido muitas vezes estas estradas argentinas, pois desde os anos 80 vinha para a América do Sul encontrar motos antigas, preferencialmente fabricadas entre os anos 20 até 40. Comprava as motos, despachava em containers para seu sítio na zona rural de Frankfurt, Alemanha, as restaurava e vendia pela Europa.


Numa destas viagens conheceu a extraordinária história de Enrique Pontolillo, um revendedor Harley Davidson em Lima, no Peru. Nascido em 1900, Enrique foi o primeiro credenciado Harley fora dos Estados Unidos, em 1931. O alemão descobrira toda esta história pois finalmente conseguiu, nos anos 90, comprar tudo o que havia ficado trancado no galpão da loja de Enrique, desde que esta loja encerrou suas atividades em 1974. Após anos com este galpão trancado, a família resolveu dar outro uso ao prédio e resolveu atender àquele alemão doido, que todos os anos desde 1985 ia até o Peru insistir em comprar este depósito que nem havia explorado, pois a família não permitia que entrasse. Mas ele intuía que algo precioso estava ali. Um dia o telefone tocou em sua casa na Alemanha e era alguém da família oferecendo o material. Imediatamente foi até Lima e negociou sem ver o que lá havia. Fecharam um preço e fizeram o negócio. Algumas semanas depois, seis enormes containers chegavam ao seu sítio na Alemanha. Espantado e animado, começou a explorar seu novo acervo.


O alemão me contava toda esta história entre longos goles de cerveja. Eu cada vez mais interessado, bebia cada vez mais lentamente, para não perder nada daquilo que me falava. De uma forma ou outra, o álcool e o interesse já nos permitiam falar um mesmo idioma.

Mergulhando em seu novo acervo junto com um amigo restaurador, acharam várias caixas e baús com muitas fotos, reportagens e documentos em espanhol. Curiosos, buscaram um especialista em espanhol na universidade e encomendaram a tradução dos documentos, cartas e anotações nos diários de Enrique. Foram anos de trabalho, mas descobriram a vida apaixonante deste empresário e motociclista peruano. Já nos anos 30, sem estradas e mapas, este doido tinha ido de motocicleta do Peru até os Estados Unidos. Fez várias destas viagens ao longo da vida, por toda a América, com meses de duração. A cada cidade que chegava, marcava corridas com os motociclistas locais e cobrava ingressos para ir fazendo dinheiro para continuar viajando. Os documentos e fotos registravam todos os detalhes desta história incrível e quase inacreditável, comprovada em documentos e em muitos artigos de jornais da época, cuidadosamente armazenados nestes arquivos, que embora tivessem sido abandonados por anos na loja fechada estavam ali, preservados.


O alemão se sentiu obrigado a contar esta história desconhecida ao mundo, e decidiu escrever um livro, com copias dos documentos e muitas das fotos da época. Foi até a sede da Harley Davidson nos Estados Unidos com parte do material. Os antigos arquivos da fábrica comprovaram a história. E a Harley resolveu ajudar na publicação do livro, relatando a vida deste herói desconhecido. Emocionado pelo álcool e pelas lembranças, o alemão me contava que estava fazendo esta viagem com uma moto do mesmo ano e modelo de uma das últimas viagens de Enrique Pontolillo. Havia comprado esta moto em um leilão da PM de Porto Alegre, RS, avisado por um amigo brasileiro. Manteve a moto na casa deste amigo em Santa Catarina e a restaurou, lentamente, em diversas viagens enquanto o livro era escrito e preparado. Todo este trabalho levou muitos anos, desde os anos 90 quando conseguiu comprar este acervo até este momento. O objetivo desta viagem foi entregar pessoalmente uma cópia do livro ao irmão de Enrique, ainda vivo, com quase 100 anos de idade. O alemão foi de Santa Catarina até Lima, de moto, entregou o livro à família, chorou junto com o irmão de Enrique e agora estava voltando ao Brasil, após uma volta pelo Chile e Argentina quando me encontrou ali, em Gancedo.


Eu acho que Deus nos ama de uma forma que nunca poderemos entender. E tem um humor especial ao nos preparar surpresas assim. Graças a um pneu sem vergonha fabricado na Alemanha, que se esfacelou com menos de 400km de uso, agora eu conhecia um alemão muito especial. Sua dedicação a um estrangeiro desconhecido do passado, simplesmente pelo amor a motos e viagens que os unia, o fez realizar um esforço inacreditável. E presentou a família de um herói esquecido com o reconhecimento merecido de seu parente. Agora, com toda a cerveja consumida ao longo da tarde e a história concluída, éramos dois adultos chorões ali. Emocionado e embargado, intimamente eu falava com Deus e agradecia.


Anoiteceu e o Cristian chegou, resolvido a me levar para a festa de aniversário da cidade, exatamente nesta noite. Foi o Cristian que havia encontrado o alemão no posto de gasolina da cidade e contado sobre mim. Confesso que não me lembro muito dos detalhes, mas acabamos a noite eu, Cristian, o alemão e o Paco, dono do hotel, ainda tomando cerveja e dando risada uns com os outros, na varanda do hotel.


O domingo foi de ressaca. O alemão se despediu pois precisava retornar logo para Santa Catarina, já que sua passagem de avião para a Alemanha já estava agendada. Foi um longo abraço aquele. E pedi que me mandasse uma cópia do livro quando chegasse em casa. Ver o alemão ganhando estrada com sua Harley deu uma tristeza pela sua partida e pela minha impossibilidade de seguir com ele.


Retornei ao quarto um tanto desanimado, mas logo fui chamado pela senhora para o almoço de domingo da família. Vários parentes estavam por ali e o dono do hotel me apresentou a todos como sendo o “seu filho brasileiro”. O povo do interior normalmente é simpático, mas estes argentinos são inacreditáveis em seu aconchego e hospitalidade.


Ao final do dia, o Cristian veio me buscar para irmos até a cidade vizinha buscar os pneus usados despachados pela concessionária, pois o ônibus não parava em Gancedo. Fomos até lá e nada. Descobrimos que o motorista desembarcara os pneus numa cidade a mais de 100km dali. Fomos até lá e os pegamos. Já era noite quando retornamos a Gancedo, mas o Cristian foi até onde morava o borracheiro local, que estava num final de churrasco com sua família. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, sem titubear o borracheiro largou a família num domingo à noite e foi até sua oficina montar o pneu na roda da moto. Eu não acreditava naquilo. Só sabia agradecer a eles e a Deus. Ele cobrou o valor que cobraria de qualquer moto em horário comercial normal. E não aceitou nenhuma gorjeta a mais, creio até que ficou indignado com minha oferta.


O Cristian me levou de volta ao hotel e fui montar a moto. Falei a ele que sairia logo cedo no dia seguinte. Pretendia ao menos chegar em Corrientes com os pneus velhos e lá tentar alguma outra solução, talvez até encomendar um pneu do Brasil. Nos despedimos ali mesmo, nos desejando sortes e bênçãos. Eu fazia votos pelo nascimento de sua filha em breve e agradecia emocionado, mas nada do que eu falasse ou fizesse poderia demonstrar a imensa gratidão que sentia.


No dia seguinte, bem cedo numa manhã chuvosa, enquanto estava arrumando a moto para embarcar o Cristian chegou novamente em sua camionete. Vinha me entregar um papel, com nome e telefones de seus amigos e parentes que moravam em várias das cidades dali até Corrientes. Na noite anterior, ele havia entrado em contato com todas estas pessoas avisando que um brasileiro poderia precisar da ajuda delas em seu trajeto e todas estavam disponíveis para mim. Eu não podia acreditar no que acontecia.


O nome dele era Cristian, Deus cuidava de mim e eu não sabia.


Emocionado, subi na moto e segui pela estrada chuvosa. Novamente, havia água da chuva na viseira e meus olhos estavam embargados pela emoção. Mas desta vez eu pilotava cuidadosamente, com pneus velhos e esperanças renovadas. Pessoas conhecidas me fizeram perder a fé nas pessoas. Desconhecidos me fizeram recuperá-la. Entendi que a culpa não era da fé que eu depositara, cada pessoa é responsável por merecê-la ou não. Eu não mudaria o meu jeito de ser.


Em Corrientes fui a uma loja de pneus e encontrei um casal, proprietários da loja, que se desdobrou para encontrar uma solução. Contei sobre a situação que enfrentara e novamente desconhecidos faziam muito mais do que eu esperava para me ajudar. Pesquisaram alternativas, telefonaram para os especialistas da Pirelli em Buenos Aires e com os mecânicos da concessionária da KTM em São Paulo. Todos envolvidos encontraram uma solução com um pneu e câmera com outras medidas, mas que seriam aceitáveis nas especificações da moto. Com esta adaptação retornei à São Paulo com tranquilidade.


Fim do capitulo

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