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Eu acolhi a minha tristeza. E me fez bem.



Vivo hoje o pós-tempestade. Em vários textos adotei a metáfora da tempestade para a longa e terrível crise que atravessei, relatando episódios, dores e reflexões. Depois de uma vasta destruição a tempestade se foi e finalmente posso recomeçar.


Estou reconstruindo a vida, mas nem por isso abandono o que me aconteceu. Ainda há muito o que aprender com o que atravessei. E aprendendo sigo relatando as minhas reflexões e descobertas.


Nesses dias de vida nova em uma nova terra no velho mundo, tenho pensado muito a respeito da tristeza. Falarei aqui sobre o que considero uma tristeza necessária, um sentimento natural e característico da vida que pode estar relacionado à depressão mas que não é a depressão, é só tristeza, mesmo que pareça longa e profunda.


As tormentas mais fortes em nossa vida esgotam as nossas forças. Chega um momento em que não conseguimos mais seguir. Qualquer movimento exige uma força descomunal, o ar rareia, os olhos se cansam. Não dá mais.


Todos chegamos a momentos assim e não há nada de absurdo em assumirmos a nossa fraqueza e incapacidade momentânea de continuar.


Não falo de desistir, mas de se permitir parar. Um dia, dois, cinco, na cama ou trancado em casa de pijamas. Ou sem eles. Um período para não pensar em nada, pelo menos em nada sério ou relacionado às obrigações da vida. Não pensar nem na própria tempestade, nesses dias deixa ela lá, acontecendo segundo seu inevitável destino.




São momentos para ler revistas de fofoca e assistir a filmes bobos. Deixar a mente se ocupar de coisas irrelevantes.


São momentos também para se conectar ao sagrado, para orar, para meditar sobre o Caminho.


Acredite, todos precisamos de dias assim para recarregar as energias e serenar mente e corpo.


Alguns mergulham na tristeza e acabam deprimidos de verdade. É um risco. A depressão é um problema grave e é sempre bom ficar antenado com a sua própria condição. Minha dúvida em casos assim é se a depressão já não estava instalada ou se instalando, paralela à condição de tristeza. Não sou um especialista para avaliar, sou apenas um homem lidando com suas próprias emoções, com a experiência de quem já viveu inúmeras tristezas e duas crises depressivas.


Ficar triste e sem energia é algo esperado em situações difíceis. Minha leiga opinião é que essas emoções e cansaços não devam ser artificialmente evitadas. Insisto, é a opinião de um leigo. Não estou “passando receita” aqui, apenas quero induzir o leitor e a leitora a uma reflexão sobre sua vida e suas emoções. Conheço histórias de pessoas que a qualquer emoção negativa já tomam seus remédios e evitam de qualquer maneira a dor e temo por elas.


Penso que toda dor tem seus motivos e precisa ser enfrentada. Da mesma forma a tristeza. É claro que existem situações graves, como a depressão que citei, que exigem intervenções e tratamentos. Mas quando dá precisamos aprender a lidar com as adversidades da vida com as nossas forças. Nem tudo precisa ou deve ser evitado.


Existem muitas considerações sobre o luto, quando se perde alguém próximo. Adiar a dor da perda é algo que certamente trará consequências ruins no futuro. Já conversei com muitas pessoas que entendem com naturalidade o luto e que é necessário passar por ele. Por que não se pensa assim sobre as demais tristezas da vida? Deveria ser assim também com as dores das nossas adversidades pessoais.


O homem mais perfeito que já esteve entre nós teve vários episódios de tristeza.

Parece fácil falar não é? Mas não é não. Escrevo com total consciência e conhecimento de causa. Quem acompanha meus escritos sabe das minhas adversidades e dificuldades.

Durante muito tempo tentei evitar a dor, de muitas formas. Também me culpei pelos meus momentos no sofá assistindo filmes bobos. Exigia de mim mesmo uma força e perfeição emocional que nunca poderiam existir de forma continuada.


Também me submeti à terapias e tratamentos, pois muitos à minha volta me achavam deprimido. Mas dessa vez eu não estava. Eu já tive depressão grave há alguns anos e sentia que era diferente agora. Era sim uma tristeza profunda, cansaço extremo, incapacidade de reagir às continuas e enormes turbulências, mas não era depressão.


Só pude perceber a diferença por já ter alguma experiência comigo mesmo. Fiz terapia por mais de quinze anos e em alguns momentos por orientação do psiquiatra fiz uso de medicação. Sou totalmente favorável ao tratamento adequado em situações que exijam esse cuidado, não gosto de remédios mas sou totalmente disciplinado a eles quando são necessários.

Mas agora foi diferente. Um dia entendi e reconheci que tinha todos os motivos para estar triste e me sentir fraco, até pela impotência sobre meu destino. E decidi me permitir a sentir o que meu corpo, alma e espírito sentiam e sentiriam de qualquer forma.


Não ofereci mais resistência e me entreguei à tristeza e ao cansaço. Reconheci meus limites físicos e principalmente os limites emocionais.




Antes eu lutava contra algo que já estava ali, tentando enganar a mim mesmo. Abandonei essa auto hipocrisia e me deixei levar por algo que é absurdamente natural durante fases de perdas e fracassos.


Agir honestamente comigo mesmo foi como encontrar uma nova forma de viver ao longo das tempestades. Não lutar contra as ondas, mas me deixar levar por elas. Aos poucos fui me percebendo melhor e encontrando forças e habilidades que desconhecia.


As pessoas à minha volta não entendiam nem aceitavam isso muito bem. O mundo vai te achar louco se você decidir aceitar a tristeza de uma situação triste. É insanidade isso, não é?


Mas é assim que o mundo reage.
Você não pode se entristecer, então compre roupas. Ou vá se divertir. Ou viaje. Ou beba. Ou coma chocolate. Ou tome antidepressivos.

O mundo consumista tem sempre uma solução pronta para que as pessoas evitem suas tristezas e reconheçam as suas fraquezas.


Penso que a falta de concordância do mundo para que as pessoas possam ficar tristes quando existem motivos acaba gerando uma multidão de pessoas deprimidas. Assumo um risco ao mencionar isso, mas suponho (filosoficamente) que com antidepressivos e similares talvez aconteça o mesmo que com os antibióticos: a utilização indiscriminada talvez possa trazer problemas quando eles são efetivamente necessários.


Ou então as demais alternativas consumistas apenas cavem mais fundo o poço da tristeza até que vire uma fossa depressiva.


Tudo em nós tem um sentido e um propósito. Nada em nosso organismo é a toa. O próprio stress é um mecanismo biológico que teve a sua utilidade no passado e ainda nos é útil em situações de risco iminente.


A tristeza é uma emoção necessária e não pode ser evitada a todo custo. Fugir da tristeza justificada é semear problemas mais profundos para o futuro.


Foi assim que decidi assumir minhas tristezas, tinha muitos motivos para elas. Mas tive que explicar muitas vezes porque não as evitava.


Fiquei sim muito triste por bastante tempo. Mas eu sabia que não estava depressivo. Acho que a vantagem de assumir nossas emoções genuínas nos abre a possibilidade de identificar as emoções em seus primórdios. Identificá-las mesmo quando temos ainda apenas um vislumbre e assim usufruí-las.




Vou tentar explicar de outra forma: eu aceitei a minha tristeza e comecei a conviver com ela. Continuei levando a vida normalmente, com dias muito difíceis, outros menos. Fazia as coisas sem me preocupar em afastar a tristeza, fazia porque queria simplesmente. Uma sessão de cinema, um passeio no parque, uma caminhada. Nada tinha um objetivo maior do que o prazer imediato que aquela atividade me traria.


Agindo assim me vi rindo em filmes ou sorrindo ao ver uma criança brincando com seu cachorro no parque. Coisas pequenas que me traziam pequeninas sensações de felicidade mesmo tendo uma imensa tristeza como pano de fundo.


Curioso não é? Uma pessoa triste pode ter vários momentos de felicidade.


Minha sensação é que aos poucos fui exercitando meus “músculos emocionais”. Fui ficando mais forte para lidar com as emoções e mais consciente dessas emoções e suas variações.


Dar vazão à tristeza me permitiu dar vazão à felicidade também. Uma felicidade que raramente eu alcançava mesmo muito antes de toda a minha crise começar.


Talvez pareça bobo falar isso, mas a minha capacidade de perceber a beleza nas pequenas coisas ficou muito mais aguçada. Fiquei mais emotivo em relação à arte e à natureza. Fiquei mais sensível ao mesmo tempo que muito mais forte emocionalmente.


A partir do momento em que me permiti ficar triste toda a minha condição emocional começou a melhorar. Não foi imediato nem fácil e não sei se isso pode ser uma receita para outras pessoas. Mas foi assim comigo.


Aprendi a não fugir mais das minhas tristezas e fraquezas. Muitas vezes é difícil enfrentá-las, mas essa é a forma que tem funcionado para mim.


Entender a tristeza e como essa emoção me atinge me fez perceber melhor as nuances da vida, me abriu a reflexões mais profundas e a entender outras pessoas e seus humores.


O humor da alma que vive as suas emoções. Isso aguça a sensibilidade. Em um dos próximos textos vou falar sobre a melancolia, que não é tristeza propriamente, apenas uma sua parente próxima. E eu gosto dela.


Seja bem-vinda minha tristeza, eu a acolho em meus braços. Sem ti não conheceria a felicidade.