Estradas que ensinam

Atualizado: 9 de Set de 2019



Fiz várias viagens de moto, sempre sozinho. Muitos me questionaram por ser de moto e por preferir viajar solo. Fui algumas vezes ao Atacama, explorando regiões sensacionais da Argentina e do Chile, e fiz várias viagens no Brasil, por curtas e médias distâncias. Alguns se espantam por ser de moto, por ser sozinho, pelos riscos e desconforto, pelo tempo que leva para chegar ao destino. Outros simplesmente entendem, com um olhar compreensivo que dispensa qualquer explicação racional.


É mesmo difícil explicar para quem não tem este “espírito de estrada”. Mesmo assim me arrisco a encontrar uma forma de expor algo tão pouco racional, simplesmente porque precisamos valorizar as nossas trajetórias mais do que os destinos que alcançamos. O aprendizado está na jornada, não na conquista.


Não se trata de gosto por aventura. Isso não explica. Se fosse simplesmente gostar de aventuras eu teria vontade e aptidão por muitas outras coisas que não tenho. Também não é uma manifestação de algum tipo de loucura ou rebeldia adolescente, pois minhas viagens sempre foram cuidadosamente planejadas e executadas, mesmo nos perrengues e modificações impostas ou espontâneas.


O que chamo “espírito de estrada” é simplesmente se colocar a caminho de algo e apreciar o trajeto, para além do destino final. Empreender a jornada e buscar compreendê-la para muito além das rotas físicas. Sair para o mundo para encontrar a si mesmo. A estrada como a rota física para uma viagem mental, por vezes espiritual, a depender do alcance e da profundidade. Pouco depende de ir longe, mas depende de ir fundo.




Qualquer estrada pode ser o caminho e é a forma de a percorrermos que faz a diferença. A experiência sensorial, a interação com o ambiente, o enfrentamento das condições e intempéries, o conjunto de sensações pouco usuais em nosso cotidiano contribuem para uma experiência de outra ordem, que faz com que uma viagem assim não seja apenas turismo. Estar só permite um mergulho nos lugares percorridos e junto às pessoas encontradas. Estar de moto permite um contato com a realidade que o conforto de um carro impede.


Talvez seja possível mergulhos assim sem viajar, sem estar na estrada, sem estar sobre uma moto. Acredito mesmo que muitas pessoas consigam estes efeitos de outra forma, um amigo um dia me disse que alcança este “estado mental” em suas corridas de rua. Mas a forma que encontrei é essa. E como sinto falta disso!


A busca por mim mesmo através do deslocamento físico para outro lugar aciona algum tipo de porta de percepção, que me faz compreender as coisas de outra forma vendo uma parte do mundo que não costumo ver. Preciso viajar para viver de verdade e para compreender a vida que vivo.


Um trecho do livro Paratii – Entre dois Pólos, do Amyr Klink, traz uma definição profunda da necessidade de viajar. Um trecho que coloca em palavras o que trago na alma:


“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.” (Amyr Klink, Paratii Entre dois Pólos)

Profundo não?


Ir para saber voltar. Estar longe para usufruir o que está perto. A necessidade de ver para entender.




Muitas vezes imagino mudar tudo em minha vida. Ir para outro lugar recomeçar do zero, como se fosse possível uma vida completamente nova a partir da minha experiência e conhecimento de hoje. Infelizmente ou não nunca será realmente do zero pois mesmo em um novo local, com pessoas desconhecidas e com uma nova realidade, trarei ainda meus fantasmas, lembranças, dores, sucessos e insucessos. A vantagem de estar noutro local talvez seja o afastamento. A chance de observar a vida do alto e encontrar novos caminhos pela visão ampliada, percebendo erros não vistos. Combater a impossibilidade de mudar a vida de então, arriscando o já conhecido pela possibilidade do novo.


Uma viagem pela estrada é um pouco disso. Uma pequena dose de uma vida diferente. Uma forma de viver uma mudança profunda, mesmo que com prazo definido. Uma suspensão da vida normal, permitindo a visão distante do cotidiano, ampliando a capacidade de observação que permite ver o que não se via e trazendo a oportunidade de refletir e ponderar a partir da minha essência, muitas vezes obstruída por camadas de problemas e desgastes.


Sempre gostei da experiência meditativa que a estrada proporciona, mas antes de viajar de moto eu só conseguia este estado mental algumas vezes quando dirigia (um carro) sozinho. Depois de ter família, a preocupação das viagens passou a ser de ordem prática. Segurança, paradas, chegar logo e de forma mais segura possível ao destino. E o destino sendo sempre mais importante do que o trajeto. A ida à praia, à casa de parentes no interior, a um hotel na montanha. Ir e vir era simplesmente o trajeto a se cumprir para usufruir de alguns dias em outro lugar. A jornada não tinha importância, apenas o chegar. Porém, algumas vezes quando sozinho em viagens a trabalho, eu podia exercitar a mente contemplativa, deixando que a condução do automóvel fosse feita pela parte mecanizada do cérebro enquanto a parte lúdica vagava, por muito além daqueles trechos de estrada percorridos.


Quando consegui novamente ter uma moto, muitos anos após as primeiras na juventude, tive que voltar a praticar. O trânsito de São Paulo para motociclistas tem suas exigências e dificuldades, que estão longe de serem prazerosas. Assim, logo passei a fazer alguns passeios em estradas. Trechos de vinte quilômetros diários que passaram a cem, depois duzentos, quatrocentos e que chegaram a mil em um dia de uma viagem pela Argentina. Aos poucos o corpo vai adquirindo a capacidade física, os reflexos vão sendo afiados e a percepção se expande. O cérebro vai incorporando a mecânica da condução, automatizando os reflexos para que a moto seja pilotada. Mas o maior aprendizado que alcancei nas estradas de moto foi sobre a minha mente.


Quando a prática permite que a atenção não fique mais concentrada na condução, o pensamento tem a liberdade para vagar. Esta pode ser uma experiência prazerosa ou terrível, caso ocorra uma turbulência de pensamentos com as nossas pressões diárias: problemas, contas, dívidas, atrasos, metas, relacionamentos conturbados. Quando isso acontece, andar de moto se torna apenas uma forma desconfortável e arriscada de manter a mesma vida medíocre. Demorei a perceber que lutar contra esta turbulência mental não ajuda, apenas aumenta a autocritica. Precisei entender este estado mental, aprender com ele e como dominá-lo.


Confesso que demorei a aprender. Tentava lutar contra esses pensamentos na estrada da mesma forma como lutava com pensamentos ruins quando insone rolava na cama. Inutilmente tentava mudar os pensamentos. Iludidamente tentava “pensar positivo”. Enfraquecidamente tentava. Enfraquecida a mente se impunha.




Por fim aprendi que não poderia me livrar da turbulência mental, da mesma forma que não conseguiria me libertar de uma tempestade na estrada simplesmente pela minha vontade. A tormenta precisa passar por si, perder sua força, dissipar suas nuvens carregadas, aplacar seus ventos, secar suas lágrimas de chuva. Aceitei que não poderia combater um cérebro conturbado. Ele deveria apenas se esvaziar por si, com os turbilhões de pensamentos sumindo por inanição dos ventos que os moviam.


Comecei a compreender que esse pode ser um processo longo. Algumas vezes meu cérebro levou horas para se esvaziar, mas em muitas outras vezes foram necessários alguns dias para isso. Nas viagens mais difíceis, não pelo trajeto mas pelas condições de partida, precisei de quatro ou cinco dias de pilotagem intensa, extensa e extrema para que os pensamentos dessem trégua.


Aprendi a lidar de forma a deixar a turbulência de pensamentos conturbados acontecendo no cérebro, com minha atenção focada na pilotagem e nas necessidades básicas, minhas e da moto. Esticar as pernas quando as cãibras ameaçam, paradas para abastecer, beber água e comer algo. Só isso. Foco no básico enquanto permito meu cérebro fazer o que quer com os pensamentos mirabolantes e suas soluções mágicas para dramas insolúveis. Simplesmente me desligo dos pensamentos e vivo o minuto presente, trocando as marchas na hora certa, fazendo as curvas na tangência exigida, desviando de buracos quando preciso. Vivo o momento, concentro meu esforço na pilotagem e respiro. Minha mente que se dane pelo tempo que quiser.


Aí acontece. De repente percebo que a mente se calou. Desistiu, vencida pelo desprezo da minha consciência primal e superior. Meu cérebro então se volta plenamente ao momento presente, na estrada física e na minha rota de mergulho pessoal. Apenas agora a viagem começa de verdade, algumas vezes já há uns dois mil quilômetros do ponto de partida.


De certa forma consegui trazer algum aprendizado disso para a vida normal vivida sobre minhas botas e não sobre a minha saudosa motocicleta. Aprendi a não combater mais a turbulência mental de frente, aprendi a deixar que passe e avance como uma tempestade. Aprendi que a chuva não dura para sempre e que acima do céu cinzento o azul ainda existe. É mais difícil fazer isso fora da estrada e é muito mais difícil conseguir sucesso sem estar sozinho, pois muitas vezes as pessoas à nossa volta são sujeitos, substantivos e verbos dos pensamentos turbulentos. Mas de alguma forma e em alguma dose tem sido possível.


De uma forma ou outra a vida traz sentido para a nossa trajetória. Se eu não tivesse aprendido minhas técnicas próprias de sobrevivência mental antes talvez não conseguisse enfrentar as tempestades de hoje. Cada tempestade nos ensina sobre a próxima, apenas precisamos aceitar e permitir que o aprendizado ocorra, para cada um de nós de uma forma própria.




Sinto falta da estrada, como sinto! Mas da mesma forma que as estradas físicas serviam como rota para mergulhar dentro de mim, meus mergulhos pessoais hoje me transportam de alguma forma às estradas físicas que percorri. E as percorro novamente, com minha mente tomada agora pelas lembranças do asfalto, da terra, do vento, da chuva, do sol nascendo ou se pondo. O frescor da estrada vem a mim, de alguma forma ainda, pois o senti antes. E sei que o sentirei novamente.

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