Descobrindo Eros




Eu devia ter uns dez anos de idade quando ouvi “Os seus botões” pela primeira vez. Já havia tido algum contato com o erotismo pelas revistas que meu pai colecionava, lá nos anos 70. Mas foi pela voz do Roberto Carlos que tive talvez o meu primeiro contato real com a minha libido, precoce e totalmente desconhecida.


Ainda hoje quando ouço a canção exatamente a mesma imagem se forma em minha mente. A poderosa letra do Erasmo me leva a um quarto com janelas envidraçadas, cortinas leves e roupas espalhadas. Na cama dois amantes em meio aos lençóis brancos, alguns móveis também brancos por ali, paredes de um tom roseado, alguns quadros coloridos. E a capa pendurada em um gancho na parede.


As janelas embaçadas disfarçam levemente a vista para um jardim regado pela chuva, arvores e arbustos pontuando um belo gramado que limita a rua com algum movimento de carros e pedestres, indiferentes ao amor que acontece no quarto.


Ah essa incrível capacidade de falar tanto com tão poucas palavras!


Eu não conhecia ainda o poder da poesia, embora fosse um leitor sedento. Devorava Júlio Verne, Alexandre Dumas e Mark Twain, até hoje escritores queridos. Mas ali naquela canção fui apresentado ao mundo da poesia, ao meio que nos transporta à outra realidade. Uma realidade que eu ainda não ousava conhecer: a do amor feito e entregue.


“Braços que se abraçam,

Bocas que murmuram

Palavras de amor

Enquanto se procuram”


Tanta coisa contida em tão poucas palavras! Talvez ali eu tenha sentido verdadeiramente o impacto que os versos podem ter sobre o coração. Um coração que ainda se descobria, pulsando por paixões tão infantis e inocentes quanto impossíveis.


Ao ritmo dos botões lentamente desabotoados eu imaginava a mulher pouco a pouco se revelando. Não sabia quem era ou seria a mulher, isso pouco importava, porque ali o que contava era a beleza do amor acontecendo. Não sabia quem era ela, apenas que seria a dona do meu amor um dia.

A magia da poesia acontece quando ela nos sequestra e nos leva para dentro de suas palavras. Vamos nos emaranhando nos versos, quais redemoinhos nos levando sem controle, fortes correntes que nos trazem à superfície cada vez que as rimas ou a falta delas nos afunda. Linhas e entrelinhas percorridas ao sabor das ondas, ventos e marés.

A capa pendurada me representava então, espectador surpreso e ansioso por mais. Viajante do tempo e espaço vendo e sendo visto. Envergonhado por estar ali ao mesmo tempo que inebriado pela grandeza daquele momento.


A descoberta da minha libido foi assim, embalada pelas letras de Roberto & Erasmo. Isso talvez explique meu gosto por contos eróticos, muito mais eficazes que qualquer desses vídeos espalhados por aí.


O poder da palavra como arma de encanto e sedução. O alcance infindo do verso para descrever sentimentos e paixões. O poder de corpos entregues à paixão e ao amor que se faz presente, enquanto o mundo acontece lá fora.


A letra de “Seu corpo” é outra preciosidade da minha formação erótica.


No seu corpo meu momento é mais perfeito E eu sinto no seu peito o meu coração bater E no meio desse abraço eu me amasso E me entrego pra você


E continua a viagem No meio dessa paisagem onde tudo me fascina E me deixo ser levado Por um caminho encantado Que a natureza me ensina


Coração que só se realiza quando bate no peito do outro. Amor que é jornada e experiência, busca e encontro, comando e entrega, natureza e transcendência.


Pouco tempo depois Roberto Carlos traz “Cavalgada”. A canção me encontra um pouco mais conhecedor das artimanhas do desejo. Passa a descrever meus sonhos reais, vontades impossíveis de então. Vou descobrindo a possibilidade de ousadia intensa de versos descrevendo o inenarrável.


Em minhas fantasias sigo me sentindo como um gigante e na realidade nada mais do que um menino. Um tolo e virgem quase adolescente compreendendo de alguma forma a imensidão da entrega ao amor, o amante que se perde no outro e como a beleza dessa hora pode fazer o sol aguardar para nascer.





O meu amor à poesia eu devo às letras de Roberto & Erasmo. Foram eles que primeiro me apresentaram o amor em versos. E também devo a eles a minha primeira formação erótica, tão fundamentada no romantismo que até hoje é a forma de amor que me move.


Foram muitas canções assim que me fizeram ser o que sou: um amador das palavras e amante dos versos.


Meus pais não me apresentaram à poesia diretamente, mas formaram meu gosto musical. Nasci e cresci ouvindo o amor nas vozes de Roberto e Erasmo, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Benito de Paula, Júlio Iglesias, Antônio Marcos, Cauby, Aznavour, Dick Farney, Toquinho e Vinicius, entre tantos outros. E todos me acompanham sempre. São minhas joias de família, minha herança.


Não importa a distância ou o tempo, esses artistas e suas canções me transportam aos momentos queridos da infância, aos churrascos com amigos, férias no sitio de Ibiúna, sábados de sol na casa da Santa Rufina, momentos tão especiais quanto inesquecíveis.


Me vejo menino, descobrindo o mundo e tão cheio de riquezas imateriais à minha volta que só hoje posso me dar conta de quanto fui feliz ali.


O amor que sinto pela vida foi formado no seio da família. Uma família como tantas cheia de problemas e confusões. Mas que me formou para ser o que sou, também tão cheio de problemas e minhas próprias confusões. Minhas confissões escritas trazem ordem a toda a bagunça e retornar no tempo permite reconhecer preciosidades não valorizadas então, mas fundamentais na minha percepção da vida, do amor e de mim mesmo.


De todas as desarrumações da existência o que fica é o amor. Pela vida, pelas paixões, pelas canções, pelas musas reais ou imaginárias, pelas pessoas que fizeram e farão parte da minha história.


Obrigado Roberto, por tocar aqui hoje novamente e me encantar da mesma forma como há quarenta anos. Meu coração continuamente apaixonado agradece.



Esse vídeo é de @Flávio Moura que gentilmente cedeu seu uso para esse artigo.



©2020 by William Andreotti Jr. Proudly created with Wix.com