As portas fechadas para o jardim


Comecei minha vida profissional aos 19 anos. Com os 52 que tenho são 33 anos de jornada. Destes, 29 anos com relevante sucesso como profissional e empreendedor. É claro que tive alguns tropeços, superados por trabalho e dedicação, o que sempre acreditei ser a regra do jogo.


Depois destes 29, quatro anos permanentes de trevas. Neste tempo tentei jogar com as regras que sabia e fui aprender outras mais, com todas as técnicas profissionais e de negócios que vocês podem imaginar. Fiz e refiz propostas, abordagens, metodologias, estratégias e serviços. Revi ofertas, condições e preços. Fiz todas as reflexões de planejamento, todas as tentativas de manual e fora dele. Apenas não cedi a meus princípios, abdicar do padrão ético é um preço que não me dispus a pagar.


Mas tudo, absolutamente tudo, deu errado. Eu não desaprendi da noite para o dia, nem o mundo mudou tão subitamente. Muita coisa mudou sim, em mim e no mundo, mas nada que justifique tantas (e todas) as portas fechadas que tenho conhecido com meu rosto batendo em sua rigidez surda.


Talvez eu seja turrão a ponto de insistir por caminhos definitivamente bloqueados sem perceber a concretude destes bloqueios. Talvez eu seja incapaz de perceber que Deus, ou simplesmente a vida, quer outra coisa de mim. Essa minha surdez espiritual talvez me impeça de ouvir a rota certa e assim as rotas erradas vão se mostrando impedidas, bloqueadas, sem saída. Por que fechar centenas de portas na expectativa de que eu encontre a porta certa ao invés de me sinalizar qual é esta? Não dá para ter uma lâmpada em cada porta, indicando luz vermelha antes que eu me esborrache nela? E uma, uma ao menos que seja, com uma luz verde à minha vista?



Vejo pessoas diariamente nas redes no mesmo esforço de busca de uma porta aberta ou ao menos destrancada. São tantos nesta caçada que o esforço conjunto traz alguma solidariedade, mesmo que entre desconhecidos com caminhos distintos. Mas se existe algum consolo no coletivo, no individual só existe dor, raiva, angústia, dúvidas e revolta. Por que comigo é assim? Por que depois de tantos anos com tudo dando certo estes vários anos já batendo dolorosamente com a cara de porta em porta?


São perguntas retóricas, caro leitor. Não tenho as respostas. Este não é um texto que oferece caminhos, é apenas um texto de desabafo de uma dor que pretendo compartilhada para irmanar a outros, tão machucados e sem explicações quanto eu.


Nestes quatro últimos negros anos fiz muitas escolhas e opções. Algumas forçadas, outras minhas. Comecei a trilhar novos caminhos, a propor outras formas, a manifestar aprendizados vindos também dos fracassos, não apenas os anteriores provindos dos sucessos. Sinto o caminho novo sendo trilhado, aos trancos e barrancos, batendo o rosto de porta em porta, mas avançando em um rumo dolorosamente delineado. Mas é uma jornada sem provisões. A fome vai sendo mitigada com uma coisa ou outra pelo caminho, a sede pelas poças d´água, o frio e a chuva parcialmente afastados em abrigos temporários, a solidão enfrentada mas não vencida. Não tenho um mapa, a única coisa que me faz acreditar que este seja o caminho é uma fé inexplicável, uma percepção da minha alma, que no fundo também pode estar errada. A própria dúvida é uma característica dessa fé, por contraditório que pareça. Fé naquilo que não se entende, pois se entendesse não seria fé, e sim convicção. A fé manifesta dúvida, mas crê. Questiona, mas confia. Minha fé é falha, sou humano e não há garantias ou assertividade na minha natureza fraca.


Penso em desistir todos os dias. Várias vezes ao dia. Se alguém pensa que sou forte por insistir, está enganado. Sigo porque sou fraco e assim compreendo Paulo quando diz que quando somos fracos é que nos fortalecemos. Entretanto, ainda sou falho como fiel pois não vejo prazer nas minhas dores, necessidades e fraquezas. Estou muito distante do apóstolo e ainda mais do Mestre, que por aqui tanto sofreu por amor a nós.


As provisões que recebo na jornada são ofertas de carinho e generosidade, de pessoas que se identificam de alguma forma e cedem alguns minutos de sua atenção, respeito e carinho. Nada se compara a isso, nada tem valor acima disso. As necessidades emocionais, muitas e exageradas por carências infindas assim vão sendo supridas, de tantinho em tantinho, um pouquinho entregue de cada alma-irmã pelo caminho.


Só que às vezes preciso da possibilidade de cortar a grama de um jardim em troca de um prato de comida e abrigo. E não encontro nenhum jardim nessa selva de pedra. Talvez já tenha ido o tempo em que alguém pudesse se oferecer para aparar a grama e retirar as ervas daninhas. Talvez não existam mais terras livres do concreto que impermeabiliza a vida.



A metáfora de portas descobertas fechadas através do “rosto batendo” contra elas é bastante apropriada. Minhas mãos sempre estiveram ocupadas e sobrecarregadas. Arrastei muita coisa em pesadas mochilas e equilibrando caixas nas mãos, o que tornava impossível tentar abrir estas portas de outra forma. Lentamente várias coisas desta carga foram sendo abandonadas ou perdidas. Coisas materiais que tiveram importância maior do que deveriam, sonhos frustrados, desejos perdidos, relações profissionais e pessoais firmadas em interesses superficiais, sentimentos de mel correspondidos por fel.


Ainda que pesadas, muitas dessas coisas quando deixadas trazem dores intensas e talvez por isso seja tão difícil renunciar a elas, mesmo que já tenham se tornado cadáveres putrefatos daquilo que um dia foram. A ilusão daquilo que teria sido tentando inutilmente manter viva a decrepitude inevitável daquilo que hoje é.


Talvez o peso da carga ainda não tenha diminuído, por ser tão difícil desapegar daquilo que um dia tive. A dor da ausência talvez tenha ainda o mesmo peso, não sei. Ou então a carga esteja mais leve, mas eu mais fraco para suportá-la, o que dá na mesma. Hoje, mais cuidadoso, tento abrir as portas com as mãos mesmo. Mas elas insistem em permanecer inertes, como se fossem paredes pintadas de porta, com o objetivo de apenas sinalizar impossibilidades de travessia.


Não sei até onde vai esse corredor escuro de muitas portas. Tateando ainda sigo, sem saber como nem até quando. Talvez um dia uma porta abra, talvez um dia as portas acabem, talvez um dia alguém acenda a luz e diga que tudo foi apenas um sonho ruim.


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