As dores da partida



Nesses últimos dias profundas tristezas se abateram sobre familiares e amigos. Ciclos da vida concluídos por doenças ou tragédias, trazendo dor e espanto, além do questionamento de como as coisas serão a partir de agora.


Dores previsíveis ou incompreensíveis, todas elas dilacerantes.


A única certeza da vida é a sua finitude, mas nunca estamos preparados para essa conclusão.

Sentir essas dores na distância da vida imigrante tem sido uma experiência ainda mais angustiante. A separação entre os continentes amplifica a dor pela impossibilidade real de entregar e receber um abraço daqueles que comungam de uma mesma tristeza.


A ausência me impede de me solidarizar fisicamente nos momentos finais – não que a minha presença fizesse alguma diferença real, mas uma simples troca de olhares de compreensão da dor para aqueles mais próximos da pessoa que parte já trariam algum alivio.


Se não a eles, a mim mesmo.


Os tempos impedem as cerimônias de despedida como devem ser. Desde o inicio da pandemia achei esta uma de suas maiores crueldades. Com estas restrições daria na mesma eu estar em Lisboa ou em São Paulo, impedido de participar e me solidarizar presencialmente. Mas essa racionalidade não muda a dor solidária acrescida da dor imigrante.


Sinto pelos que foram e por todos aqueles que seguirão com a dor da ausência. Oro por todos pedindo consolo ao Criador, a minha única forma de alcançar algum sentido na falta de sentido da morte.


Estranho e me surpreendo que nesse tempo de tanta dor vejamos tanta insensibilidade. O corpo do funcionário morto no supermercado coberto por guarda-sóis para não atrapalhar o fluxo do comércio. A praga mundial de uma geração tratada como questão política. A menina abusada usada como arma ideológica de fundamentalistas, de um lado e de outro.


Que mundo, Deus, que mundo!




Conheço muitas pessoas sensíveis que estão em frangalhos emocionais pela dor que se espalha. Elas poderiam estar trazendo bálsamos com suas criações mas estão impedidas de colocar sua arte para o mundo pela dor desses tempos que lhe trava o peito.


Desgraças e catástrofes são esperadas no Apocalipse. Eu começo a desconfiar que guerras, terremotos e tempestades de fogo são desgraças menores do que as ações resultantes dos corações duros das pessoas insensíveis. Um dia já me perguntei porque teria sido necessário um dilúvio, preservando apenas Noé e sua família. Acho que hoje eu compreendo.


Não pensem que sou um crente tolo que acredita em estórias da carochinha. A minha fé me sustenta, mas não obscurece a minha racionalidade, antes a reafirma. Simbólico ou real, o fato é que naqueles tempos como agora a humanidade envergonha a sua própria existência.


Não são todos. Talvez hoje fossem necessárias milhares de arcas para salvar os que são dignos, mas estes sempre seriam uma pequena fração do todo.


O mundo melhor começa em mim e se expande à minha volta. Eu tento contribuir da forma que consigo. Minha ação é limitada e nem sou tão bom quanto gostaria de ser, mas eu tento. A minha voz anda presa no peito apertado, minhas palavras se recusam a compor os textos que preciso, mas estou aqui, vivo e cheio das minhas próprias dores aceitando as dores adicionais desse tempo.


Não é fácil e nem será. Tenho dias de profundo questionamento comigo e com Deus. Conversas sérias de filosofias profundas sobre as consequências da existência. Alguns dizem que a vida é uma escola, outros que é uma experiência a ser vivida, uma dádiva ou uma desgraça. A vida é o que é, repleta de dores e pontuada de alegrias. Mais fácil para uns do que para outros. É o que temos. A vida que nos levará por altos e baixos, alegrias e tristezas, rumo ao fim previsível mas nunca esperado.


A dor exige solidariedade. Compartilhar a dor alheia é uma profunda manifestação de amor e se há algum sentido nessa vida é o amor que supera a dor.


Viver pode ser doloroso e triste, mas viver quando se ama e amar enquanto se vive justificam todo o sofrimento da existência destinada ao fim.


De tudo o que há eu acredito no amor. Absolutamente tudo o que existe é decorrente do amor e a ele se dobra. Mesmo a dor da morte e da ausência, porque esse mesmo amor que cria e fortalece seus laços honrará à sua própria existência quando a materialidade não se fizer mais presente e a dimensão desse amor se revelar em sua verdade e transcendência.


No início era o verbo. E o verbo era amar.


Mesmo a dor mais profunda que alguns amigos agora atravessam, impossível de dimensionar, não é a dor do fim, mas da separação. A morte existe mas não vence, apenas separa. A dor transforma a existência, mas não elimina o amor. Amor que segue amando, amor que é verbo antes de ser substantivo, amor que traduz a vida e lhe dá a sua essência. Amor que se perpetua, que pavimenta os caminhos da eternidade e a ela traz coerência.


Viver dói. A dor exige solidariedade e respeito. O amor sempre será a resposta.






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