A inquietude como competência



A inquietude talvez tenha sido a principal marca da minha vida profissional. Nunca me conformei com o “estado de coisas”. Com frequência encontrei algo que poderia ser melhor, mais rápido, mais abrangente, mais produtivo.


Sempre preferi transformar a realidade do que administrá-la. Um amigo uma vez me disse que eu era um “reformador de empresas”, o que fez muito sentido.


Ser assim funcionou. Aprendi muito, alcancei bons resultados, ganhei promoções, ótimos salários e alcancei o sucesso profissional que busquei.


A mesma inquietude me levou a expandir horizontes, buscar novas empreitadas e empreendimentos.


Uma inquietude que é uma sede da alma, difícil de saciar. Busca desafios vida afora como quem bebe água ao fazer caminhadas ao sol.


Embora exista sempre uma insatisfação com a situação presente, ser inquieto é uma boa forma de viver por essa disposição natural à buscar algo novo. Uma disposição que pode ajudar em todas as atividades profissionais.


Problemas acontecem quando falta método ou energia para agir. A inquietude por si só pode levar a uma postura de insatisfação e rabugice. Pode nos tornar “reclamões”, criticando muito e oferecendo pouco.


Mesmo adotando uma forma de agir que me fez ser bem sucedido muitas vezes, em alguns momentos não tive energia suficiente para dar um sentido construtivo a essa inquietude, passando a ser um crítico voraz e um tanto inútil. A crítica que não edifica mais atrapalha que ajuda, mesmo que esteja bem fundamentada e direcionada. De nada vale uma crítica que não traga embutida uma proposta de melhoria.


Todos passamos por fases com maior e menor ânimo, é natural. A maturidade e o autoconhecimento me ajudaram a perceber o meu estado de energia e a ponderar minhas atuações. Mas amadurecer é um processo com muitos erros e eu os cometi. Felizmente aprendi algumas coisas com eles.


Independente do estado de ânimo, a inquietude pode ser frustrante se não for direcionada para algo útil, tanto no trabalho como na vida. Eu acabei por encontrar uma forma de lidar com isso, um método que me ajudou a direcionar a minha inquietude de forma prática e produtiva.


É um método simples de entender. O difícil é implementar, pois exige esforços, comportamentos e atitudes para dar resultado.


Não sou muito fã de siglas, mas vou abrir uma exceção. Vou chamar o método de DCAC.


Descobrir
Conhecer
Aprender
Compartilhar

Descobrir, Conhecer, Aprender, Compartilhar. Uma “receita de bolo” que adotei para transformar a minha inquietude em resultados práticos na vida.


Não pensem que tive uma iluminação mágica sobre isso ou que criei o método por esforços intelectuais no início da carreira. Na verdade, fui vivendo dessa forma, aos trancos e barrancos, até perceber que essa minha disposição de agir funcionava e trazia bons resultados.


Só agora nessa fase de vida em que me dedico à escrita e, para isso, à compreensão das dimensões humanas no trabalho, é que passei a contextualizar e estruturar esse pensamento, de forma a poder apresentar a mais pessoas através dos meus textos.


Como disse, compreender o método é simples, mas as exigências para aplicá-lo podem ser bastante árduas. Destaco as que considero principais:


Descobrir exige coragem
Conhecer exige força de vontade
Aprender exige atenção
Compartilhar exige disposição


DESCOBRIR


Descobrir tem muitos sentidos: revelar, dar a conhecer, perceber, avistar, encontrar, inventar.

A inquietude pode ser um estado de alma, mas quando ela se aplica a algo é preciso entender o porquê.


Você pode achar que um determinado processo do seu trabalho pode ser melhorado, sem saber necessariamente porque ou como. Pode ser a intuição, pode ser um olhar crítico que percebe problemas e oportunidades antes mesmo de ter um raciocínio completo a respeito.


Talvez a sua experiência em situações similares permita que você perceba algo estranho sem saber claramente o que. Enfim, vários motivos podem despertar essa inquietude.


Mas você terá que descobrir se está certo ou não. Precisará se aprofundar naquilo, o que exige coragem.




Seu incômodo pode ter relação com um processo feito da mesma forma há tempos. Pode ser algo criado pelo seu chefe ou ainda algo tão arraigado na cultura da empresa que será difícil mexer. Pode ser uma tecnologia que exigiu muito investimento e virou uma “vaca sagrada”.


Toda empresa tem coisas assim, “vespeiros”, onde a maioria acha que não se deve colocar a mão.


Você terá que descobrir por si mesmo. Nesse momento, talvez só você esteja percebendo o problema ou a oportunidade. Ou talvez outros também tenham percebido, mas não tem a disposição de agir.


Agir ou não é uma decisão sua. Se decidir não mexer no vespeiro ok, mas não vá virar um “reclamão” se não tiver a coragem necessária para enfrentá-lo.


Muitas vezes não serão questões tão graves. Existem muitos processos e atividades normais que podem ser aprimorados e você teve o senso de oportunidade. Aproveite.


Em ambas as situações será necessário coragem para seguir em frente. Toda oportunidade tem um risco associado e você ainda pode estar errado, afinal. Só vai saber se a sua inquietação tem fundamento se conhecer melhor a situação.



CONHECER


Conhecer é tomar consciência de algo, estar familiarizado, saber a respeito. Exige proatividade, tem que ir atrás, tem que buscar. É necessário ter força de vontade para isso.


Todo processo ou atividade tem seus motivos, sua história, justificativas e causas. Muitas vezes podem existir explicações superficiais e simples, mas ficar apenas na superfície é um risco. Normalmente são as mudanças profundas que trazem os melhores resultados, portanto mergulhe no tema.


No esforço de “descobrir” você já deve ter identificado com mais clareza um ou mais aspectos que indicam a oportunidade de melhoria. É agora, no esforço de “conhecer” que você vai identificar as causas por trás desses aspectos.


Se aquilo a que você se propôs a fazer é um “vespeiro”, vai entender porque é assim. Aliás, só indo a fundo é que você vai poder mensurar os riscos reais de ser mesmo um vespeiro ou não. Muitas vezes as pessoas pensam que é, mas não, simplesmente um vai acreditando no outro e as lendas corporativas se formam e se mantém.




Vá atrás de explicações, não aceite respostas fáceis. Mergulhe. Você precisa se familiarizar com todos os aspectos envolvidos.


O livro de Provérbios nos diz que “Todo homem prudente age com base no conhecimento, mas o tolo expõe a sua insensatez” (13:16).


Se você acha mesmo que identificou uma oportunidade de melhoria, seja prudente e busque conhecer a fundo a situação, antes de sair falando a respeito. Não seja tolo de apresentar críticas e proposições baseadas em superficialidades. Você poderá até estar certo na sua percepção, mas sem se aprofundar não conquistará legitimidade para agir.


Na maior parte das posições profissionais você será remunerado para exercer um conjunto de atividades já estabelecidas e funções definidas. São poucas as posições que exigem a busca de inovação em atividades e processos. Entretanto, em qualquer cargo ou função são os profissionais que vão além que realmente fazem a diferença. Você pode escolher ser um deles e alcançar ótimos resultados, mas se decidir por isso precisará se esforçar de verdade.


Até agora você descobriu uma oportunidade e procurou conhecer tudo o que pôde a seu respeito. Conheceu o contexto e as causas e confirmou se é ou não um vespeiro.

Também pode ter percebido que não era uma oportunidade real. Se for isso ok, siga em frente e continue procurando outras oportunidades.


Mas se existe mesmo a oportunidade e o contexto é favorável à mudança, agora você precisa aprender tudo o que for possível a respeito da situação existente e das possibilidades de mudanças e suas exigências.



APRENDER


Aprender significa adquirir conhecimento ou habilidade, instruir-se, passar a ter melhor compreensão sobre algo.


Agora é o momento em que você vai ter que estudar sobre todas as condições envolvendo a situação que você quer melhorar. Você descobriu a oportunidade, conheceu tudo o que foi possível sobre a situação e agora precisará aprender tudo o que puder a respeito das áreas de conhecimento envolvidas naquilo.


Aprender exige atenção, dedicação, foco, concentração.


É necessário que você estude a fundo as bases de conhecimento que dão sustentação a aquela atividade. Eu nunca fui um especialista e ao longo da carreira me envolvi em todas as áreas de administração de empresas. Em muitos momentos tive que ir atrás de livros e aulas para estudar sobre finanças, marketing, recursos humanos, controladoria, tecnologia. É preciso entender os conceitos e as práticas, entender o jargão.




Toda proposição de mudança estabelece um conflito com a situação existente. Mudar traz desconforto e muitas pessoas podem resistir a mudar. Existem muitas formas de lidar em conflitos assim mas seja qual for a sua estratégia ou as condições, você precisará estar preparado e fundamentado para questões técnicas específicas. Caso um debate se instale e você não consiga discutir nos termos em que a área de conhecimento específico exige você será massacrado. Portanto, aprenda tudo o que puder a respeito.


Aprender sobre as áreas de conhecimento envolvidas lhe trará repertório, mas também pode ajudar a identificar soluções mais efetivas e abrangentes. Vale a pena estudar a fundo.



Compartilhar


Uma das formas de lidar com os eventuais conflitos para a mudança é disseminar o que aprendeu às pessoas que eventualmente resistam à mudar. A melhor forma de convencê-las é fazendo com elas aprendam algo e possam ser beneficiadas com as vantagens da mudança.


Compartilhar significa dividir com os outros, arcar conjuntamente. Compartilhe tudo o que aprendeu, dissemine seus argumentos, mostre a lógica por trás da mudança. Comunique-se.

Você precisará angariar apoios, para isso dissemine o que aprendeu abertamente para ganhar a confiança das pessoas.




Muitos processos organizacionais de mudança falham por deficiências de comunicação. Em situações assim, uma vez apresentadas todas as condições e argumentos, os lideres tomam a decisão e a mudança começa, mas a comunicação com a equipe é insuficiente, seja no início do processo de mudança, no seu andamento ou em ambos.


Além de compartilhar informações e conhecimentos, é necessário compartilhar os resultados, como forma de favorecer a mudança, legitimá-la e sedimentá-la.


A mudança pode trazer ganhos de eficiência, aumentar a produtividade, melhorar a qualidade. Alguma forma de apuração de resultados deverá ser utilizada e parte desses resultados poderá ser distribuído, de alguma forma (preferencialmente criativa) aos envolvidos.


Essa disposição favorecerá mudanças no futuro, pois as pessoas perceberão vantagens para todos e terão menos resistência a abandonar vacas sagradas ou a mexer em vespeiros. Seja criativo e pense desde o início da proposição da mudança em como os resultados poderão ser compartilhados.



A inquietude como forma de viver


Tal como no trabalho a minha inquietude se manifesta na vida. A busca pelo novo me atrai. Um novo autor, uma nova banda, um novo destino de viagem.


Sou fiel às minhas afeições na música, na literatura, nos destinos de viagem. O Deserto do Atacama e Paris são paixões tão eternas quanto distintas entre si, e a essas paixões sempre retornarei. Mas gosto do novo, do imprevisto, de descobrir o que tem após a próxima montanha ou virando a esquina à frente.


Preciso da estabilidade, como todos, mas a utilizo como base de exploração da vida, não como destino ou fundamento. Gosto do porto seguro e tranquilo para a minha embarcação, mas o barco da minha vida só encontra sentido ao navegar.


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Se você também é inquieto e quer comentar sobre situações que enfrenta, aproveita e escreve. Pode comentar aqui embaixo ou me mandar uma mensagem privada se quiser a minha opinião. Pode ser apenas uma conversa ou quem sabe uma mentoria para que você também seja um “reformador de empresas”. Não desperdice a sua inquietude!



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