Reviajar é preciso



É tempo de revisitar as viagens um dia realizadas. Abrir as gavetas da escrivaninha empoeirada da memória e deixar que o conteúdo respire novamente.


Viagens feitas não só pelo destino mas também pelo percurso. De longe são essas as minhas preferidas. É sempre bom ir ao aeroporto, entrar no avião e desembarcar em Paris. Mas é ainda melhor quando além disso podemos pegar um carro ou uma moto e rodar pequenas estradas como as da Provence, descobrindo cada cidadezinha por trás de montes e curvas.

Percorri muitas estradas na vida. Sempre gostei de meditar dirigindo sozinho e ainda mais pilotando uma moto sem uma agenda a cumprir.


Uma das vantagens das viagens solo é fazer as coisas como dá vontade. Parar quando quiser, seguir como puder, dormir onde for. Nunca fui motociclista de andar em grupo, para mim viajar de moto é algo tão pessoal que não há espaço para nada além de bagagens e apetite por descobertas. E reflexões, sempre.


Minha alma filosófica se apresenta desde moleque. Já me assumi peripatético ao meditar e aprender em minhas caminhadas. Mas as viagens de moto vão além disso. Certa vez, ao relatar as viagens ao meu terapeuta ouvi algo que nunca esqueci: a rotina de um viajante assim se assemelha à de um monge.


Acordar, preparar a bagagem, verificar a moto, partir. A cada 200 km mais ou menos parar, reabastecer, checar a moto, comer algo, partir e assim mais umas 3 ou 4 vezes no dia. Depois, chegar ao destino, tirar a bagagem, verificar a moto e dormir. E no dia seguinte reiniciar e seguir. Dia após dia.


Parece chato? Eu não acho. Eu me encontro assim. Essas viagens me levam a algum lugar, mas sobretudo para dentro de mim.

A disciplina vai acontecendo com naturalidade e rigor, tal como com a vida monástica, e isso liberta mente e espírito. Pilotar vira algo automático, seu cérebro está ali, totalmente focado na estrada e na moto. E é bom que esteja, pois se não estiver você cai. Mas com o tempo e com a experiência uma outra parte do seu cérebro começa a funcionar de forma independente. Você está ali, pilotando, mas essa outra parte da sua mente estará dedicada à pensamentos superiores, bons ou ruins, mas acima da realidade daquele instante.


É uma outra esfera mental. Meditativa, impactada pelo presente e pelo derredor ao mesmo tempo em que conectada ao universo e ao sagrado.


As circunstâncias da vida me levaram a não ter uma motocicleta agora, condição que espero temporária. Mas as muitas viagens que fiz me ensinaram a acessar esse estado mental de outras formas hoje. Mesmo que não seja de uma forma tão intensa e continuada quanto em uma viagem de 9 mil quilômetros atravessando um continente.




O trecho a relembrar agora é a saída da encantadora Salta, denominada "La linda", no norte argentino, até Susques, a última cidade argentina a caminho de San Pedro de Atacama, no Chile.


De São Paulo a San Pedro é o trajeto longo que mais repeti. O simbolismo de ser um roteiro entre esses dois apóstolos talvez tenha até algum indício transcendental, mas isso é mera especulação. O fato é que esse trajeto, em especial o trecho da travessia dos Andes através do deserto, teve profundo impacto em minha espiritualidade mesmo muito antes da minha transformação pela fé cristã.


Saindo de Salta a rota segue para o norte em paralelo às montanhas por uns 150km quando chega o momento de virar à esquerda e enfrentar os Andes pelo Paso de Jama, um dos trechos mais amigáveis de travessia. Meu coração sempre bateu descompassado nessa encruzilhada, ao abandonar a RN9 e entrar pela RN52 que me levará até o Chile.


Eu me lembro muito bem da primeira vez. Estava com minha XT660 após ter uns problemas na corrente que me levaram a ficar dois dias a mais em Salta. A expectativa era grande e também a preocupação, pois os problemas que ocorreram me fizeram lembrar de que não era imune a eles. E agora iria encarar a altitude e o deserto. Eu nunca havia enfrentado uma estrada a 4.600m e uma temperatura de 2 ou 3 graus, mesmo em um dia de verão com sol.


Mas fora a surpresa da primeira vez essa sensação me acompanhou em todas as viagens posteriores. Um deslumbramento seguido de uma noção absurda de vulnerabilidade frente à montanha e ao deserto.


A cidade de Purmamarca fica logo antes de começar a subida, ao lado da montanha das sete cores, um resumo das cores que ainda virão. A paisagem é impressionante. Várias montanhas assumem colorações predominantes, algumas avermelhadas, outras amarelas, verdes e azuis. A altitude ali está por volta dos 2.400m.


A subida tem muitas retas na base da montanha, mas logo os caracoles chegam. Sequencias de curvas muito fechadas conectadas por pequenas retas. Andar a baixa velocidade com uma moto carregada em curvas acentuadas e com muitas pedras soltas pela estrada é um desafio. A inclinação é severa e faz com que ganhemos altitude rapidamente, em poucos minutos alcançamos 4.600 m.




Na primeira viagem sofri muito com o mal da altitude, respiração ineficiente, dores de cabeça e cansaço extremo. Aprendi a tomar o chá de coca, que não faz nenhum efeito perceptível a não ser deixar tudo normal impedindo esses sintomas.


O frio aumenta com a altitude e em breve chegamos ao topo dessa primeira cadeia de montanhas. Logo começa a descida ao altiplano, que é a região de planalto que fica entre as cadeias montanhosas dos Andes. Nesse trecho do Atacama o altiplano supera os 600 km de largura entre a área montanhosa Argentina e a Chilena, ao lado do oceano Pacífico. A altitude média por ali está em torno de 3800m.


Ao longe já se vê as Salinas Grandes, um dos diversos salares do deserto. A vista é magnifica, o branco do sal, a cor acobreada do deserto e o céu de um azul impressionante.

Viajar de moto no deserto me fez perceber como não olhamos para o céu na nossa vida normal. Eu pelo menos não olhava. Andando em São Paulo, de um lado para o outro no trabalho eu só olhava para frente, para os lados e para trás. Mas depois dessas viagens, a cada vez que o trânsito parava em um dia de sol eu procurava o azul, mesmo o azul pálido de São Paulo, para me reconectar ao céu verdadeiro.


A viagem segue por descobertas. Após o salar as surpresas continuam. Por incrível que pareça a vida é abundante nesse trecho argentino do Atacama. As águas de degelo formam lagunas que tem crustáceos e vegetação ao redor. Patos e flamingos vivem ali, mas também lebres, lagartos, além das vicunhas e guanacos que são selvagens e vivem em sua liberdade e das lhamas e alpacas, domesticados que vivem em rebanhos soltos, pastoreadas por pessoas que moram em pequenos vilarejos espalhados pelo deserto.




O altiplano é cercado de vulcões. Você está ali no meio do deserto e cercado por montanhas e seus picos de neve eterna. Em um determinado trecho, segundo o que vi em um guia de turismo, das várias montanhas que observamos ao redor cerca de quarenta são vulcões e nenhum deles considerado extinto.


Costumo fazer esse trecho do deserto passeando, atento a cada movimento ao redor, procurando observar, aprender, refletir. Paro várias vezes ao longo do caminho e ali fico, sentado numa rocha, olhando o céu profundo, a aridez ao redor, respirando o ar frio mas abençoado da altitude.


Observo as lagunas, as dunas, as montanhas. Montanhas sempre me causaram um impacto profundo, não sei exatamente o motivo. A mim representam força, poder, sabedoria, longevidade. Sei que parecem pensamentos estranhos, mas ali no deserto nada é estranho. Tenho uma profunda e ancestral identificação e familiaridade, sinto isso desde a primeira viagem. Inexplicável reconhecimento de algo tão íntimo quanto impossível.


Eu disse antes que minha presença no deserto teve um impacto profundo na minha espiritualidade. É muito difícil explicar, mas a presença do Sagrado é intensa ali. Talvez seja a natureza áspera e agressiva que representa tanto a vida quanto a morte.


Vida que insiste em permanecer em condições tão duras que a morte espreita, pela sede, pelo ar rarefeito, pelas temperaturas que podem variar de 40 a menos 20 graus do dia para a noite. O deserto exige respeito.




Nossas vidas urbanas não nos permitem perceber o quanto a natureza é bela e dura. Como é difícil sobreviver em condições limite. Foi preciso que eu me colocasse exposto a essas condições para que me lembrasse da minha vulnerabilidade. E me deslumbrasse com o poder da criação, da natureza que nos cerca para muito além das nossas cidades tão confortáveis quanto alienantes das verdades maiores da existência.


Gosto de dormir em um pequeno hotel em Susques, pequeno vilarejo argentino, o ultimo antes da fronteira. As noites aqui são especiais, 3.800m de altitude, muito frio e um céu deslumbrante. Chego ao final da tarde, almoço o que tiver, foi ali que comi Locro pela primeira vez e também milanesa de lhama. Não é uma situação turística normal.


Quando anoitece tomo um chá, reforço os agasalhos e saio caminhando por trás do hotel, um terreno livre em direção ao deserto. Costumo subir uma pequena colina ali, me sentar numas pedras e ficar vendo a quantidade inimaginável de estrelas. Dá para seguir o trajeto dos satélites, ver estrelas cadentes, fazer viagens interplanetárias pelas estrelas ou voltar ao tempo imaginando os exploradores da antiguidade em contato com esse céu.


A beleza é tanta que aquece a alma, mesmo que o corpo esteja congelando. A noite segue silenciosa. Volto ao quarto, organizo as coisas e me entrego ao sono, que costuma vir pesado aqui.


Na manhã seguinte recomeçar. O chá com torradas de um pão estranho mas delicioso, o céu azul, a moto aguardando a retomada. E mais deserto a frente. Antes de partir um último olhar ao hotel, ao monte em que me sentei para ver as estrelas, ao céu que me cobre e guarda. A estrada me espera, a vida continua e ainda terei San Pedro ao final desse dia.








William Andreotti Jr.

Escritor, consultor, mentor e produtor de conteúdos sobre Administração, Negócios, Recursos Humanos e Carreiras. Defensor de uma visão humanizada para o mundo dos negócios e carreiras profissionais baseadas em princípios e valores.




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