Resistência emocional: como sobreviver às próprias emoções

Atualizado: 20 de Ago de 2019



Já há algum tempo alguns leitores têm me sugerido escrever com mais detalhamento sobre intuição e inteligência emocional na atuação profissional. São ótimos temas e muito pertinentes à nossa (normalmente) tensa rotina. Mas eu tinha muita dúvida se poderia abordá-los, principalmente falar sobre inteligência emocional, pela fase de vida que atravesso e pelas condições emocionais um tanto turbulentas que enfrento.


Comentei sobre isso com uma amiga-irmã, dizendo que não via como abordar um tema que me fazia tanta falta. Ela me disse que exatamente por atravessar o que atravesso e ainda estar em pé e avançando é que eu poderia falar sobre isso.


Costumo fazer algumas caminhadas que além de ajudar na condição física são ótimas para reflexão e para ajudar a equilibrar as emoções em momentos mais turbulentos. Após uma destas “caminhadas de reflexão” considerei que talvez eu possa abordar o assunto – os leitores que irão julgar, afinal. E fazer caminhadas já fica como uma dica.


Há alguns dias recebi a análise crítica sobre um livro que escrevi, há meses aguardada. Um editor havia assumido o compromisso de avaliar o manuscrito, ressaltando o quanto estas análises críticas podem ser duras e que muitos escritores ficam abalados quando as recebem.


Eu aguardava ansiosamente esta análise, mas a temia, claro. Acho sempre difícil receber críticas, embora eu reconheça a sua necessidade como condição para evoluirmos. O fato é que emocionalmente não ando numa fase boa para ser criticado e tenho certeza de que muitos leitores já viveram fases assim.


Mas quis o destino, ou os planos de Deus, que isto acontecesse exatamente no mesmo momento em que recebia a certidão de registro de direitos autorais solicitada há seis meses, junto à Biblioteca Nacional. Quando falo “mesmo momento” é exatamente o que quero dizer. Comecei a ler a crítica recebida por e-mail às 19:30h e o porteiro do meu prédio me interfona que tinha acabado de receber um envelope e estava me mandando pelo elevador. Envelope do correio chegando neste horário? Pois é. Estava no meio da leitura da crítica quando abri o envelope com a formalização do registro dos direitos autorais do livro.


Coincidência? Talvez até seja coincidência receber a certidão e as críticas no mesmo dia, duas respostas aguardadas há tempos, uma que de certa forma “oficializa” o livro como está e outra que propõe que sua estrutura de conteúdos seja reformulada, excluindo ou reduzindo muito a importância de temas que considero profundamente relevantes.


Sei bem que o registro autoral não representa nada sobre a qualidade do texto e que o analista da editora tem muito mais entendimento do mercado que eu. Mesmo assim, tenho bastante ainda para refletir e orar a respeito.


Pode ser coincidência ou não ter estas duas respostas no mesmo instante, mas assumo não ser coincidência receber as críticas em um dia ruim emocionalmente, pois estes têm sido frequentes. E a vida profissional tem muitos momentos assim.


O que me aflige não é diferente do que afeta a muitas pessoas: problemas financeiros, profissionais, sentimentais, familiares e pessoais que se misturam num caos particular e aparentemente insolúvel, cada aspecto alimentando os demais e todos se retroalimentando continuamente numa espiral confusa, absurda e poderosa. Como a espiral de um furacão fazendo com que tudo se desprenda do solo e voe, arremessado aos céus sem destino senão a posterior queda abrupta, dolorosa e destruidora em algum lugar distante. Minhas emoções voam nesta espiral de ventos insanos, atordoadas, zonzas e nauseadas com a velocidade do vento torcendo para que ele não pare, porque, quando acontecer, a queda inevitável fará tudo em pedaços.



Como falar de inteligência emocional assim?


Sinto decepcionar meus leitores, prometo que ainda voltarei ao tema em uma situação mais oportuna e esclarecida. Hoje me sinto incapaz de tratar todas as dimensões necessárias, mas posso falar sobre uma delas: a resistência.


Conheço Daniel Goleman e admiro suas obras sobre Inteligência Emocional. Ele descreve cinco pilares que a definem: a capacidade de identificar as próprias emoções (autoconsciência); a capacidade de lidar com as emoções (autogestão); a sua motivação para buscar seus objetivos apesar de dificuldades (automotivação); a capacidade de se colocar no lugar do outro (empatia) e a habilidade social, que depende do domínio dos quatro pilares anteriores.


Não vou me aprofundar nesta abordagem, para isso eu precisaria estudar muito mais a fundo estas obras. Mas partindo destas definições, talvez o que me falte seja a autogestão. Reconheço minhas dificuldades de lidar quando estas emoções negativas estão carregadas demais.


Não ouso complementar o trabalho incrível de Goleman, mas o que posso falar sobre esta gestão das emoções é sobre o que chamo de resistência emocional. Ou como enfrentar a vida quando todas as suas emoções estão contra você. Não falo sobre gerir suas próprias emoções, no conceito amplo defendido pelo autor, mas de simplesmente reconhecê-las e seguir em frente, apesar de tudo, mesmo quando o sofrimento aperta.


Alguns leitores sabem que sou cristão. Como cristão acredito que somos feitos de nosso corpo físico, nossa alma, onde estão as emoções e vontades, e nosso espírito, onde estão a nossa fé, princípios e valores mais íntimos e fundamentais.


Antes da minha conversão pela fé eu imaginava que tinha duas metades: meu corpo material e aquilo que eu vivia interiormente, minhas emoções e pensamentos. Minha “espiritualidade” estaria embutida nestas emoções e pensamentos.


Vivi assim por muito tempo e durante uma boa parte da vida também aceitei, como quase todo mundo, que merecia ser feliz e que essa busca da felicidade emocional deveria nortear a minha existência. Ser feliz era a busca e essa busca é o que traria sentido à vida.


O mundo prega isso, não é? E mais, define também a forma como você deve ser feliz: consumindo! Ter o carro do ano, uma casa maior, a roupa da moda, ir ao restaurante badalado, frequentar os lugares certos (e caros) e ainda fotografar tudo para posts incríveis nas redes sociais. Ok, esta última parte é mais recente, mas o resto já acontece da mesma forma há tempos.

Esta receita parece funcionar enquanto a ilusão permanece e enquanto o fluxo de recursos permite que a vida siga desta forma. O funcionamento é um tanto superficial, pois costuma levar a um vazio existencial preocupante. Um vazio que talvez acabe suprido por mais consumo ou por vícios, piores ou menos piores mas sempre vícios, destinados a mascarar a realidade abafando as dores. Mas ainda assim existe uma resposta do mercado, oferecendo soluções químicas e terapêuticas.


Não sou contra o mercado de consumo, reconheço as boas coisas que ele nos traz, mas cada vez mais rejeito seus abusos e verdades absolutas.


A partir de meu entendimento cristão as coisas me ficaram mais claras. Ficou ainda mais evidente que não sou definido apenas por uma de minhas “partes”. Um aspecto físico pode ajudar a me descrever, mas não me define. Ando fora de forma, reconheço, mas minha barriga mais proeminente do que deveria não me define como pessoa. Da mesma forma, melancolia ou tristeza não me definem, muito menos a depressão que enfrentei, superei e ainda me ameaça. Posso ser descrito como um “cara fora de forma e meio triste”, mas isso não me define, pois não passa de uma descrição incompleta e reducionista.


O meu entendimento da dimensão espiritual foi libertador. Uma dimensão acima da materialidade e também acima das emoções, vontades e racionalidades. Relaciona-se com princípios e valores, com o entendimento da minha humanidade no que ela tem de nobre, que essencialmente é o reconhecimento ao outro e as relações que se estabelecem, a partir do respeito, empatia, amor e dignidade. Ao mesmo tempo, entender minha dimensão espiritual me fez ver o quanto sou fraco e sujeito a erros.


A má forma física me incomoda esteticamente e por não ter mais o fôlego de atleta numa escadaria. Pode (e deve) me levar a um tratamento físico, às vezes médico inclusive, para buscar a melhor forma. Não me define, mas exige que eu cuide. Emoções desequilibradas da mesma forma não nos definem mas podem exigir tratamento. Terapias ajudam, às vezes medicações são necessárias e já passei por ambos. Tudo o que estiver fora do equilíbrio natural e afetar a nossa saúde precisa ser devidamente cuidado. Precisamos reconhecer que não somos super-heróis.


Mas não é apenas quando as coisas realmente desandam que nos afetam. Principalmente as emoções, pois estamos diariamente sujeitos às suas flutuações, variações e impactos. Quantas vezes passamos da alegria para a tristeza e depois para a ira e em seguida para o desânimo, em poucas horas? Cada emoção traz um enorme potencial de influência e muitos momentos de nossas vidas podem apresentar situações ou decisões que serão enormemente impactadas por estas emoções.



Aspectos físicos ainda podem influenciar as emoções. A fadiga colabora com o desânimo e até por isso falei das caminhadas no início. Mas e as variações hormonais femininas? Isso só me faz admirar ainda mais as mulheres e suas posturas aguerridas, pois deve ser muito difícil viver todos os desafios da vida com estes impactos hormonais acontecendo frequentemente e influenciando diretamente seus aspectos emocionais.


Na minha visão masculina (e simplista) penso que estas influências hormonais sobre as emoções possam ser um obstáculo adicional que as mulheres enfrentam nos desafios da vida. Por outro lado, a intuição feminina é poderosa e uma vantagem a ser respeitada. A natureza nos fez assim, homens não sofrem estes impactos hormonais frequentes e talvez por isso muitos sejam tão imaturos emocionalmente.


(Espero ter tratado de forma respeitosa estas questões, nestes tempos em que falar de diferenças de gêneros, mesmo biológicas, nos transforma em alvos de críticas por preconceito.)


Independente desta diferença biológica, todos estamos sujeitos à influência das emoções em nossas vidas. E devemos resistir a elas.


Muitas vezes leio conselhos e orientações, tipo aquelas frases de Instagram, que falam sobre como devemos controlar as emoções pela nossa própria vontade, combater a tristeza com pensamentos positivos, serenar a ira pensando em coisas boas, etc. Ok, visualizar coisas boas pode ajudar. Ter boas lembranças para mentalizar em horas de aperto pode ajudar a fazer com que sua respiração volte ao normal num momento de tensão. Já fiz isso muitas vezes e realmente traz um certo alívio.


Em alguns momentos turbulentos, por exemplo, revivo memórias de minhas viagens solitárias de moto nos Andes e vivencio uma rápida fuga emocional capaz de trazer alguma serenidade e paz. É um alívio temporário quando funciona, apenas suficiente para recuperar o equilíbrio, compassar a respiração e superar a adversidade imediata.


Entretanto, quando a tristeza bate fundo e pesado, me colocando quase a nocaute, não adianta tentar pensar em coisas positivas. Quando a emoção “retorce as tripas” não há pensamento doce e mágico que funcione e às vezes é o contrário: pensar nas coisas boas e positivas apenas mostra o quanto elas estão inacessíveis, aumentando a tristeza.


A espiral do furacão que comentei antes é cruel. E ela pode surgir a partir de qualquer emoção negativa predominante: tristeza, raiva, inveja, desonra, humilhação, desespero, carências de todos os tipos. Os ventos fortes ainda misturam as emoções com pensamentos negativos, que assim ampliam as forças dos ventos... até que algo acontece. Pode ser algo positivo que interrompa os ventos de uma vez ou que os enfraqueça, pode ser apenas o tempo passando e você retomando o controle, pode ser apenas uma pausa provisória ou até mesmo a solução de um grande problema que realmente altere seu estado emocional.



Mas a questão é o que você pode fazer enquanto o furacão está aí sobre a sua cabeça? O que fazer enquanto você está girando nos ventos turbulentos?


Não acho que existam receitas-padrão a serem seguidas indiscriminadamente, que garantam o resultado. Falo por mim, sobre o que tem funcionado de alguma forma na minha vida, com a única expectativa de inspirar as pessoas a procurarem suas próprias soluções, similares ou não às que adoto.


A partir do momento em que entendi a minha dimensão espiritual pela fé cristã, encontrei um novo ponto de referência. Esta dimensão do espírito não é subordinada à minha alma, ou seja, não está condicionada pela minha mente racional nem às subjetividades de minhas emoções. Esta dimensão de referência maior me permite seguir um propósito, ligado aos meus princípios e valores, definido pelo meu desejo de contribuir com outras pessoas a partir do que experimento e vivo.


Fácil? Nem um pouco. Atravesso momentos improdutivos e desgastantes. Dias pouco inspirados e noites insones. Mas é o que me faz seguir em frente e vir aqui escrever as coisas que publico.


A cada texto apresentado recebo algumas dezenas de comentários e mensagens, o que me deixa muito feliz. Algumas destas mensagens trazem depoimentos bastante francos sobre a contribuição dos temas que trato no momento de vida que aquela pessoa atravessa. A sensação que vem de receber uma resposta assim é muito gratificante. Serve como estímulo para que eu siga em frente em meu propósito, mesmo sem saber ao certo no que isso vai dar.


Eu busquei esta referência acima das minhas emoções para conseguir sobreviver a elas. Busco alinhar minha vida a objetivos maiores ligado ao meu propósito. E é isto que tem feito com que eu saia da cama todos os dias.


As emoções são muito importantes na vida, mas não são as minhas emoções que me definem. Sou muito mais do que aquilo que sinto: sou também aquilo que faço. E com aquilo que faço respeito a minha essência e dignifico a minha fé.


Devemos nos preservar das nossas emoções, não deixar que elas influenciem nossas decisões. E quando falo isso não quero dizer que devemos decidir apenas usando a nossa mente racional. Devemos sim ser racionais e ponderados, avaliando as questões que nos aparecem por vários ângulos e exigências. Devemos pensar nas consequências das decisões e a quem elas afetam. Todo o pensamento racional é necessário e ele deve ser construído sem que as emoções negativas ou positivas tenham um peso relevante. Mas existe um espaço de subjetividade possível e necessário: a intuição.


Intuir não é sentir. A intuição envolve aspectos racionais conscientes e inconscientes, levando a uma determinada conclusão. A palavra tem origem latina (intueri) e seu significado é contemplar, considerar, ver interiormente. É uma capacidade de discernimento e percepção, que independe de um raciocínio lógico que a explique.


Podemos aceitar ou não a premissa do argumento da moralidade, segundo a qual todos temos em nós um senso interno de saber o que é certo ou errado. Autores cristãos defendem este argumento como uma prova da existência de um Deus que nos criou com esta consciência, que nos alerta sobre nossos caminhos e escolhas. Mas a intuição vai além de simplesmente dizer que algo é certo ou errado. Mesmo coisas certas podem ser feitas de maneira equivocada, a depender dos envolvidos. E nesse caso conhecer os envolvidos e manter relações de empatia pode fundamentar as conclusões intuitivas.


A intuição nos mostra um caminho a seguir ou nos alerta sobre obstáculos. Vai além do raciocínio e muitas vezes temos dificuldade de encontrar argumentos que a justifiquem. Não é um sentimento a respeito de algo, mas uma percepção profunda sobre as possibilidades, condições e consequências, mesmo que seja tão difícil de explicá-las.


Como qualquer habilidade, a intuição precisa ser desenvolvida e fortalecida. Cada um de nós precisa aprender a utilizá-la e pessoalmente não vejo outra forma a não ser por experimentação, tentativa e erro. Ouvir esta voz interior não é como “ouvir” seus próprios pensamentos. É muito mais sutil, o volume é mais baixo, quase sussurrado. Você pode facilmente confundir com uma sensação, como se “sentir bem ou mal” a respeito de algo, mas sensações podem ser emoções disfarçadas. Por gostar de uma pessoa sua intuição a respeito pode ser afetada. Por desgostar idem.


Considerando novamente a dimensão espiritual, minha intuição se fortalece na minha comunhão com Deus, pela oração e meditação em sua Palavra. Acredito na ação do Espírito Santo e que Deus muitas vezes fala conosco. Quando acontece comigo sei que não é a minha intuição falando, mas algo além, sobrenatural. Quem nunca experimentou não vai entender e infelizmente não tenho palavras para explicar com clareza, mas quando Deus fala eu sei que é Ele.


Ao longo da minha carreira como líder sempre compartilhei projetos e decisões, buscando opiniões e contribuições da equipe. Buscava opiniões claras e racionais, mas também queria saber o que mais pensavam a respeito, para além de seus raciocínios. Buscava a intuição das pessoas e do grupo. Como disse antes, acredito que mulheres tenham uma capacidade intuitiva mais aflorada. Pode ser que tenham uma melhor intuição ou talvez saibam usá-la com mais talento que os homens, mas o fato é que sempre respeitei a intuição feminina, tanto em minha equipe quanto de minha esposa, ao comentar coisas do trabalho. Mas mesmo respeitando a intuição de outras pessoas nem sempre decidi por segui-las. A minha intuição poderia ser distinta. Algumas vezes me dei mal, noutras não.


O texto pode parecer pouco prático e talvez seja. O que quero demonstrar é que a intuição é uma ferramenta poderosa para a tomada de decisão e nunca deverá ser desprezada, embora nem sempre seja assertiva e garanta o resultado. Como disse, nem sempre sigo a intuição nas minhas decisões, mesmo a minha própria, algumas vezes erro, noutras acerto. É um exercício para toda a vida. Mas posso garantir que seguir a minha intuição me levou a mais acertos do que erros, mesmo sem saber claramente por que foi assim.


Todos os que estudam administração ou ocupam posições de liderança sabem da importância dos processos de tomada de decisão. Mas mesmo quem tem outras funções e profissões se envolve com decisões diariamente, em seu trabalho e em sua vida. Decisões são encruzilhadas, que levam a caminhos distintos e todo caminho terá suas consequências.


Dominar a arte de tomar decisões não é acertar todas, mas fazer escolhas conscientes e responsáveis, mesmo que elas não tenham o resultado esperado. É assim que podemos aprender com as nossas experiências de vida, como autores de nossa jornada, não como coisas lançadas ao vento, mesmo que este seja a espiral de um furacão.



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