Quando foi a sua última paixão?



Paixão em todos os seus formatos e alvos. Pelas pessoas ou por uma em especial. Por todos os animais ou pelo seu. Paixão por um livro ou por um poema. Por uma canção, banda ou artista. Paixão pela moto, pelo carro sonhado, pela bicicleta. Por uma pintura ou por pintar outras tantas. Paixão pela arte ou pelo trabalho.


Paixão pela vida. Paixão é vida.


Nosso sangue circula pelas batidas do coração e a paixão faz com que esses batimentos sejam mais fortes e profundos. Sentimos o rubor nas faces, vivemos a disposição sem fim e a vontade de mais e mais até não poder mais.


A vida pulsa pela paixão, nosso corpo esquenta e o pensamento no sujeito ou objeto de nossa paixão aquece a alma, conforta, mesmo que a alma insaciável queira sempre mais daquilo que move a paixão.


Já me apaixonei vezes sem fim. Mas sigo ainda um aprendiz de paixões incertas e acertadas. Não decido quando nem qual será o objeto ou sujeito da paixão. Simplesmente acontece quando quer, da forma que quer, por aquilo ou por quem quiser.


De repente um poema ou uma canção me toca fundo. Quando acontece fico preso a ele ou ela por dias sem fim, a canção será ouvida dezenas de vezes e o poema relido continuamente, cada palavra, sílaba ou nota musical trazendo um novo sabor, cada verso revelando um novo encanto. A ânsia profunda em desvendar cada mistério de cada linha, entrelinha e contraponto.


Eu me apaixono desde criança. Foi assim como uma coleguinha da primeira série, paixão infantil, não correspondida mas inesquecível. Mas também foi assim pela primeira bicicleta, presente inesperado que ganhei de meu avô. O encontro com aquela Monark verde, apoiada na parede quando cheguei ao sitio, é um momento eternizado na alma.


Sempre gostei de motos e pude tê-las assim que pude pilotá-las. Mas depois fiquei muitos anos sem, pelas pressões e outras prioridades que a vida trouxe. Até que um dia a paixão bateu de novo, o sangue correu forte ao ver aquele lindo corcel quixotesco numa vitrine, azul a me esperar para singrar terras e montes.




Depois a paixão azul da Yamaha virou uma paixão laranja da KTM, Com ambas atravessei os Andes e o Atacama, outras de minhas eternas paixões.


Quis o destino que eu me separasse das motos queridas, como de tantos outros objetos e alvos de minhas paixões. Mas cada paixão vivida cativa memórias eternas e cada relembrar é um novo deleite.


Também é assim com livros que li, com shows que assisti, com canções que embalaram passos de dança tão ridículos quanto oportunos. Assim como meus versos, quando cedo à paixão que eles me impõem. Apenas cedo aos poemas quando eles já provocam a hemorragia da veia poética que há em mim, normalmente escondida e inoperante, só ativada pela circulação sanguínea potencializada por alguma paixão.


Viver a paixão pode parecer ridículo às pessoas que “seguem a vida normal”. Atarefados pela concretude da vida por vezes achamos ridículos os poetas e vãs as suas poesias. Se você está nessa vibe, cuidado, é um sinal que falta paixão em sua vida.


Pessoas também me apaixonam, as vezes nas telas, como Marylin, Audrey Hepburn e Scarlett. As vezes pelo som da voz, como Sarah Vaughan, Nara Leão e Peggy Lee. Noutras vezes são as pessoas comuns, cotidianas, como a garçonete correndo a atender as mesas ou a moça da loja de flores sorrindo a cada cliente. Cada encontro é um devaneio e uma paixão fugaz que se instala profundamente e some tão rapidamente quanto. Não é uma paixão pelas pessoas em si, mas pelas histórias possíveis de suas paixões. Fantasias imediatas tomando a mente e criando enredos românticos, pequeninas paixões tão intensas quanto passageiras.


A fotografia é outra paixão crescente. Sempre gostei mas esse gostar cada vez mais me tira o fôlego. Eu me apaixono por fotos de paisagens, de cidades, de pessoas. Nesses dias me apaixonei por uma foto de uma moça desconhecida no Instagram. Um rio ao fundo, um dia de sol, uma bela moça de lindos cabelos longos. Seria apenas uma bela foto se não fosse o olhar da modelo. Um olhar que revelava toda a possibilidade de um amor insaciável, de um romance arrebatador. Não me apaixonei pela moça nem imaginei que esse amor fosse por mim. Mas seu olhar imediatamente me transportou a uma história que pude ver se desenrolar à minha frente nos minutos em que admirava a foto. As possibilidades que aquele olhar prometiam me apaixonaram - eu torço por aquele fotógrafo!


Talvez seja a alma de escritor prevalecendo sobre a crua verdade da existência. Talvez sejam as minhas carências acumuladas me deixando mais sensível às asas da imaginação. Que sejam, pois a inspiração também apaixona.




Existem aquelas pessoas que nos apaixonam sem que nisso haja qualquer coisa de romântico ou erótico. O amor tem muitas formas e muitas delas nada tem a ver com atração física, sexo ou erotismo. Paixão pelo espírito, pelo amor intrínseco que trazem e manifestam em suas vidas. Me apaixonei por tantos irmãos e irmãs de fé ao longo da minha jornada renovada! E são paixões que perduram, pois os laços que se criam são para a eternidade.


Tenho profunda paixão por Paulo. Aquele Saulo tão estudado em suas leis e fiel às suas tradições que de repente a caminho de Damasco dá de cara com a Verdade, percebe o Caminho e a descobre a Vida. Sofre, se isola por anos a fio, medita e ora. E quando é chamado vive o amor pleno em suas jornadas, nos presenteando com textos tão iluminados em seu conteúdo sagrado quanto maravilhosos em seu formato literário.


Meu amor maior é ao Pai, meu caminho e referência é o que Jesus me ensina a cada dia. Mas Paulo “é o cara”: tão humano, falho e pecador, quanto conectado ao Amor em sua maior e melhor expressão. Sua vida e seus escritos fazem parte de minhas eternas paixões.


Já fui muito apaixonado pelo trabalho. Passei muito tempo sem saber exatamente o porquê, uma vez que muitos dos sucessos profissionais que alcancei trouxeram pouca ou nenhuma satisfação. Eu me apaixonava pelo fluxo, pelo movimento. Mas essa paixão teve alguns objetivos e resultados questionáveis. Algumas vezes quis vencer apenas para provar que estava certo. Algum orgulho que fez com que minhas paixões se enviesassem para um lado equivocado.


Mas também fui um cara legal quando percebi que minha satisfação real vinha das pessoas e do que eu poderia proporcionar a elas como crescimento profissional ao enfrentar desafios consistentes e alcançar resultados. As pessoas passaram a ter muito mais importância do que qualquer outra atividade ou resultado. Fui apaixonado pelas equipes que comandei, pelas pessoas que estiveram comigo e depositaram a sua confiança em mim.


Paixão também por estradas e por cidades, que acabam por virar amor profundo. Salta, San Pedro de Atacama, Nova Iorque e Paris. Aveiro e Lisboa, paixões recentes. E tantas outras as quais ainda retornarei ou descobrirei pela vida.




Paixão não é amor, embora dele faça parte. O amor não encerra o nosso coração impossibilitando novas paixões. Vivê-las ou não é uma decisão, baseada em respeito ao outro e a si mesmo. Não dominamos o coração, mas podemos controlar os nossos passos a partir do momento em que coisas inesperadas acontecem. O fato de que nem toda paixão deva ou mereça ser vivida não invalida a paixão em si.


O recado que quero deixar é: apaixone-se sempre. Pela vida. Por um objeto, por uma obra, por uma atividade, por uma pessoa. Apaixone-se por Deus diariamente. Renove continuamente a sua paixão ao seu companheiro ou companheira. Brinque com seu cachorro, agarre seu gato mesmo que ele não queira. Lave a sua moto e a deixe pronta para o próximo passeio e quando vier curtam ambos os ventos das estradas ensolaradas.


Permita-se a paixão por desconhecidos, por suas histórias reais ou imaginárias. Crie roteiros com aquela garçonete e seus romances proibidos ou explosivos. Libere a paixão pelas histórias mágicas e encantadoras que se desenrolam apenas naqueles quinze minutos de entrega naquele café.


Reconheço minha alma de escritor, me apaixono por histórias a serem contadas um dia, reais ou não. Me apaixono por versos criados ou a criar. Por pessoas reais ou imaginárias.


Posso não ser tão poeta na prática quanto sou em espírito, nem tão talentoso com as palavras quanto com os pensamentos, mas as minhas paixões se renovam, me alimentam, me ajudam a superar dias trevosos.


Apaixonem-se, caros leitores e leitoras. Seu coração agradecerá, suas artérias e veias se reabastecerão e seu espírito se renovará.


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