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Os cinco sentidos da emoção

Atualizado: Fev 27




A travessia chegou ao fim.


O barco foi se desfazendo aos poucos na longa tempestade e ao final se despedaçou junto aos recifes. Exausto mal consegui chegar à praia. Dormi por horas ou dias, até que a fome me obrigou a levantar.


Há semanas vivo de recolher os destroços, me alimentando das escassas provisões que ainda chegam com as ondas. O pouco que veio me sustenta em terra desconhecida.


Tenho saudades do barco e da vida que tinha. Mas é uma saudade estranha. Sinto alguma falta, mas para aquela vida não quero retornar. As carências presentes iludem o coração que sente falta daquilo que o futuro ainda não trouxe e se engana com saudades inúteis do que já se foi.


Meus sentimentos me enganam. As vezes me percebo desejando coisas que nem sei se quero. Me iludo ao desejá-las ou quando as acho inúteis? De alguma forma sigo de engano em engano até que a verdade desabe sobre a minha cabeça.


A culpa é da confusão de sentimentos, eu acho. Atravessei toda a tempestade tentando chegar a algum final e agora que chego penso se não teria sido melhor lutar contra as ondas por outras rotas, como se tivesse dependido apenas da minha habilidade ao conduzir as velas. Um pensamento inútil, claro.


Muitas das minhas reflexões nas terras de cá são inúteis. Boa parte de pensamentos de “como poderia ter sido se...”. Não há nada mais imbecil do que repensar a vida nessa ótica. O “se” abre caminhos para ilusões que só trazem novas frustrações. A vida não permite o “se”,ela é o que é e foi o que foi. Se deu certo deu, se não deu não deu e assim sigamos em frente, pois olhar para passados alternativos é a pior das ilusões. Só serve para afastar as próprias responsabilidades sendo condescendente com o ego.


Se sinto culpa não é para o passado que devo olhar, mas para o alto e para a frente.


Aqui estou com minhas naves queimadas. Não há retorno e se houver tal possibilidade não será desejada, ao menos por agora. É necessário refazer a vida. O propósito de Crusoé foi estabelecer a sua vida na ilha, não alcançar o navio de resgate.


Minha bagagem é pouca, algo que sobrou da destruição do mar. O que tenho de valor, se tenho, está dentro de mim e é com isso e por isso que tentarei a vida nova.


Um novo velho mundo para uma nova velha vida. A esperança de encontrar um lugar onde não é meu lugar. Mas afinal, onde seria?




Onde estava não era. Nunca foi. Nunca me senti igual nem parte daquilo. Aqui também não é e suspeito que em nenhum lugar será. Não há o aconchego do lar para quem percebeu que deste mundo já não é.


Sinto-me em casa com meus pensamentos e apenas em alguns deles. Não quando melancolicamente penso no que poderia ter sido...assim só me perco mais. Os pensamentos que me acolhem são aqueles daquilo que sou, de como o mundo me afeta, de como a arte me toca, de como as emoções se mostram e se sentem. O acolhimento do espírito que se manifesta pela alma. Alma que sofre, tropeça, ama, se entristece e se alegra.


É curioso. O espírito não se sente em casa por distante estar de seu lar verdadeiro. E o pouco de aconchego doméstico real vem da alma ilusória. Alma trôpega, dona de si, que sente o que quer e como quer.


Mente e alma brigam sempre em mim, em um confronto a que o espírito apenas assiste, como o pai que vê os filhos rolando no tapete. Acompanha e mantém o controle, evitando a violência maior. Mas um dos lados se machuca às vezes e chora, o pai interrompe para não ficar pior, mas a dor já está lá.


Estar aqui é aprender a lidar com minh’alma. A dor da distância convivendo com o prazer da descoberta.


De certa forma e por algum tempo vivo o que sempre quis. Leio, escrevo, caminho, penso. Não sofro por hoje, mas pelo temor que isso não perdure. E é uma idiotice sem tamanho perder o prazer do hoje pela insegurança de tudo permanecer amanhã. Amadureci, mas continuo tolo.


Encarar a alma e desafiá-la não é fácil. Aprendo a lidar com seus aspectos sombrios com cautela. Tenho entendido a tristeza e a sua importância. Aceitei e compreendi a melancolia como aspecto favorável à reflexão. Mas ambas, tristeza e melancolia, podem levar ou municiar a caminhos tortuosos do coração.


Não é um esforço fácil mas é algo que preciso fazer. Busco a sensibilidade do olhar e o faro para encontrar e contar as histórias necessárias e só terei sucesso se despertar em mim o tato para o que realmente importa, ouvir a dor do mundo e sentir o sabor dos momentos que justificam a vida.

Só pude perceber a importância dos sentidos do corpo e a forma como alimentam a alma quando meu espírito encontrou a transcendência. A conexão com o divino me faz mais humano. O coração é enganoso, mas não é ele que comporta todo o amor possível. O amor toma conta do corpo, preenche a alma e impulsiona o espírito a se conectar com seu lar verdadeiro.


Quero essa dor de amor. A dor viva que se sente incapaz de alcançar aquilo que é o amor verdadeiro mas outra alternativa não há a não ser buscá-lo a cada momento, a cada dia, a cada noite.


Um amor fugidio, que se recolhe, que foge solitário para o deserto. Que tentamos alcançar pois sabemos que ao tocá-lo a nossa dor acabará para sempre. Mas não dá. Ele passou por nós e não o percebemos. Ele está entre nós e não o vemos.


Em algumas noites ele bate à nossa porta disposto a jantar conosco. Mas absortos em nós não ouvimos e ele se vai.


Cegos e surdos a esse amor, anestesiados pela vida que se impõe apressada entre gastos, desgastes e desgostos. Vida que é um carrossel interminável de ciclos viciosos. Voltas que se dá para não se parar para refletir, porque pensar dói. Na reflexão intelecto e alma irão duelar e sem o espírito a vigiar apenas a dor prevalecerá.


Despertar a sensibilidade é se arriscar a caminhos tortuosos a beira do penhasco, em noites frias e chuvosas. Andar pela neblina pisando a terra incerta, pé ante pé até a próxima pedra, tateando a escuridão querendo chegar nem se sabe aonde. Queremos luz, calor, sair do vento, algum conforto. E não serão essas algumas das promessas do amor?



Vida que segue montanha acima. Não há escolha aos que buscam a verdade. Apenas seguir é a decisão. É um caminho que não permite retorno, pois nunca mais seremos quem éramos na partida. Apenas decido a velocidade, se descanso um pouco ou não, mas sigo subindo a trilha estreita.


O caminho se faz ao caminhar e a rota se revela ao avançar. O destino é o do espírito e a transcendência é o GPS. É a conexão com o alto que nos guia.


Quanto mais me conecto ao espírito mais me desconecto do mundano e me alinho ao que há de mais humano. É um caminho sem volta pois se começar a viver assim não fará mais sentido de outra forma. Ganhar e perder perdem sentido frente a conhecer e sentir.


Não se descobre a alma humana conhecendo mais e mais pessoas. Não é um esforço quantitativo. A alma humana verdadeiramente se manifesta nas realizações e inquietações dos indivíduos mais do que nas pessoas em si.


Não preciso conhecer mil pessoas sentindo a dor da saudade para me conectar à imensidão desse sentimento. Um fado me basta.


Parece contraditório se aproximar da humanidade se afastando das pessoas. Talvez seja apenas a manifestação de um paradigma básico, que exige o afastamento para se compreender o todo. Não há compreensão sem reflexão e não há reflexão sem o afastamento. Não existe profeta sem o deserto.


O caminho do artista é sentir a emoção do mundo. Uns vivem assim por não saberem viver de outra forma, outros por escolha.


Não sei se tenho uma alma de artista, mas aprecio a arte acima de quase todas as coisas. Sou tocado de forma inexplicável por livros, quadros, fotografias e canções. Dança, teatro, cinema. Esculturas, arquiteturas e poesias. O que me toca lacrimeja os olhos que confessam logo o abalo das emoções.


Há muito abandonei o caminho das racionalidades pelo das sensibilidades. Quero meus sentidos à prontidão para as emoções e com elas e através delas tocar a outros.


E talvez eu consiga.