Mais uma garrafa do náufrago que sou




Pessoas sensíveis estão afetadas pela situação do mundo.


Ouvi essa explicação com muito carinho de alguns amigos, ao comentar nesses dias sobre a minha falta de capacidade de escrever algo que valha a pena ser compartilhado.


Vários colegas da escrita estão assim e vi o depoimento de muitos artistas enfrentando o mesmo bloqueio.


Não sei se todos enfrentam o mesmo que eu. As poucas palavras que escrevo (e não publico) têm sido repletas de desabafos ou manifestações de indignação contra os muitos absurdos acontecendo simultaneamente à pandemia.


Não me revolto contra o vírus, não é isso. Aceito o fato como decorrente do mal natural, assim como acontece com terremotos e furacões. A questão não é a adversidade, mas a forma como as pessoas as enfrentam.


Usei uma frase do Martin Luther King recentemente, em um dos raros textos que publiquei:



“A verdadeira medida de um homem não é como ele se comporta em momentos de conforto e conveniência, mas como ele se mantém em tempos de controvérsia e desafio.”


Acredito totalmente nisso. E explica a minha indignação. Não preciso citar ou quantificar os exemplos negativos para que o leitor ou a leitora entendam do que falo. Não vou propagar mais tanta coisa ruim e absurda que temos visto por aí.


Confesso que apesar da tragédia que se anunciava eu acreditava que as pessoas poderiam enfrentar a situação de forma a sairmos melhores como civilização. Fui ingênuo, claro, mas sei que muitas pessoas seguiram esse bom caminho. E muitos outros não. Talvez a imprensa divulgue apenas as más noticias e isso me afete mais.


O fato é que mais e mais pessoas à nossa volta começam a ser diretamente atingidas e a minha indignação com o descaso aumenta progressivamente.


Falei que evito publicar desabafos e até aqui é apenas isso que existe nessas linhas. Peço que aceitem como uma longa introdução.


Seja o que for que esteja acontecendo comigo, com você, com nossos amigos e familiares, com o povo da nossa cidade, com o mundo inteiro, saiba que estou solidário a você e a todos os que estão angustiados, tristes ou sem esperança.


De alguma forma atravessaremos essa situação. Não sei como e nem quando mas tudo vai passar. O que importa, na verdade, é como nos manteremos nesses tempos de controvérsia e desafio e como chegaremos ao tempo que virá, após essa bagunça passar.


Eu decidi que pouco me importa, com o devido respeito, o que as pessoas estão fazendo de mal com suas vidas. Não quero mais dar a minha atenção a líderes obtusos, crápulas sociais e a todas essas pessoas com total ausência do senso de comunidade.


Chega de pensar nos absurdos da política ou nas decisões desumanas de algumas empresas.



Eu preciso, como condição sanitária imperiosa, vestir uma máscara que cubra meu coração e cérebro dessas barbaridades. Preciso a todo custo me proteger do absurdo que contagia minhas emoções com mais poder do que esse maldito vírus tem de infectar meus pulmões.



Eu vou continuar a respeitar a pessoa que passa ao meu lado na rua. Eu vou seguir encharcado de álcool. Eu vou cancelar todos os passeios que adoraria fazer. Continuarei buscando a paz espiritual e orando por todos os que amo e por todas as pessoas desse mundo, inclusive esses que critico.


A forma como ajo ou reajo ao que o mundo me oferece é uma decisão minha, por mais que muitas vezes eu só receba dores, agressões e infelicidades.


Aquele que sigo nunca me prometeu facilidades, Ele nunca me enganou sobre o que esperar do mundo. Ao contrário, me mostrou o Seu caminho, que é difícil, estreito, longo. É custoso trilhar esse percurso, mas Ele está sempre ao meu lado quando tropeço.


Não há salvação fora do amor. Você pode seguir a religião ou a filosofia que acredita mas acho que sobre essa frase não existirá divergência entre nós.


É o amor que falta ao mundo. É o amor que poderia nos unir em busca de soluções para todos, não apenas para alguns. É o amor que me move e que cada vez mais me moverá, seja qual for a necessidade que eu tenha, a dificuldade que eu atravesse, a indignação que se prenda em minha garganta.


Não sei o que os algoritmos das redes sociais vão interpretar dessas minhas palavras carregadas de dor e de esperanças utópicas. Isso não importa na verdade.


Eu já disse algumas vezes que meus textos são mensagens de náufrago lançadas em garrafas nas ondas do mar. Essa é mais uma das minhas garrafas, que as ondas e ventos carregarão através dos tempos, até que chegue aos pés de alguém que as mereça ou necessite, numa praia deserta qualquer desse mundo.


Você leitora ou leitor que sente esse mesmo gosto amargo todos os dias quando acorda ou que permanece com algo incômodo atravessado na garganta continuamente, saiba que estou consigo. Não sei se minha solidariedade tem algum valor, mas pelo menos você não está sozinha ou sozinho nessa.


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