Humildade e esperança

Atualizado: Fev 14



Ter fé é acreditar naquilo que não se pode provar, assim como ter esperança é esperar pelo que não se pode garantir.


Aguardar pelo previsível não é esperança, assim como acreditar naquilo que é palpável acaba por ser apenas um reconhecimento de algo facilmente comprovável.


Tenho esperanças por aquilo que não sei se ocorrerá, mas quero. Algumas são bobas e vãs, como a de que o Corinthians acerte a mão (ou os pés) esse ano. Outras são esperanças um tanto ambiciosas e abstratas, como a de querer um mundo melhor e acreditar que isso um dia acontecerá.


Mas também tenho esperanças coerentes com a vida normal, como esperar que minhas filhas já adultas tenham relacionamentos amorosos especiais e uma vida tranquila e próspera.


Algumas esperanças que tenho são simples, como pretender que vocês, leitor e leitora, apreciem meus escritos. Outras esperanças já são mais complicadas, trabalhosas e incertas, como a de querer ser remunerado para viver através das minhas palavras. Já comecei esse caminho, o que mantém as esperanças vivas, enfrentando esse incerto, aprazível e desafiador destino.


Em comum, todas essas esperanças trazem o mesmo coração sereno e consciente de suas impossibilidades. Humildemente reconheço que pouco ou quase nada posso fazer para que essas esperanças se tornem realidade. Mesmo naquelas na qual tenho uma grande parte a fazer, como escrever, ainda dependo do imponderável gosto de leitores e eventuais patrocinadores que apreciem a arte e os conteúdos que fazem sentido para mim.




Essa humildade é um aspecto básico da esperança. Humildade para se reconhecer incapaz de alcançar o pretendido apenas por seus próprios esforços. É acreditar na providência, no destino, na sorte. É reconhecer a impossibilidade da certeza frente ao poder do acaso. Ou acreditar na transcendência influenciando de alguma forma os destinos, traçados ou não, dos que vivem por aqui.


Como cristão tive que aprender que não bastam apenas os esforços dos meus braços. Não se trata de carma ou de um destino já traçado e definitivo, mas de confiar. Confiar no Caminho, nos planos de Deus, na providência, na misericórdia renovada a cada dia.


Reconhecer e acreditar me conecta ao Divino, me alinha à dimensão transcendente e maior. O amor entre as pessoas deveria unir a humanidade, assim como o amor a Deus nos une a Ele. O amor a um e a Outro, conectados e dependentes, é a essência pela qual deveríamos conduzir nossas vidas.


Pode parecer um papo evangélico bobo ou um esforço de convencimento religioso. Pode até ser. Mas ambiciono mais que isso.


Ao alinhar meus esforços naquilo que tenho fé e esperança alinho minhas forças com o sagrado que habita em mim. O sagrado que quer o melhor para mim e para os outros. Que se fundamenta e se alimenta no respeito e no amor às demais pessoas nesse planeta. Que me faz responsável em cada ato e cada palavra escrita ou manifesta, que me traz força, paz, serenidade e vontade de seguir em frente.




Não abandonei minha vida ou meus objetivos quando adquiri a minha fé, mas elevei o patamar da minha vida e do que espero para ela. Não pense que jogo meu destino nas mãos de Deus, cruzo os braços e espero. Não se trata disso.


Trata-se de fazer a minha parte a cada dia, de sonhar sonhos que mereçam ser sonhados, de viver momentos que mereçam ser vividos, reconhecendo a devida importância de todas as coisas. Trata-se de valorizar as relações mais do que as realizações. De valorizar mais as pessoas do que as coisas. De equilibrar esforços e descanso, ânimo e tranquilidade, momentos de agir e momentos de aguardar.


Deus quer que eu seja o dono de meu destino, mas Seu amor por mim me oferece o caminho e consolo por toda a jornada. O caminho é Ele, mas os passos são meus.


Sou dono dos meus passos e guiado pela esperança no melhor que há de vir, com a necessária humildade para aceitar as condições que se apresentem.


Já disse em textos anteriores que meu maior pecado foi o orgulho, a soberba e a arrogância. Tive as minhas fraquezas para isso, mas as sucessivas vitórias ao longo da vida me deram a sensação de autossuficiência e uma ilusão de poder, de ser capaz de superar qualquer problema apenas com meu intelecto e meu braço.


As tempestades enfrentadas posteriormente me trouxeram a exata noção da minha falta de noção. Fui forçado a reconhecer a verdade das minhas fraquezas e defeitos, colocado frente a frente com meus erros e pecados. E sou imensamente grato a Deus por isso. Só a consequente humildade me deu condições de aprender. Meus joelhos foram dobrados à força, mas felizmente se dobraram.


Vivo muito melhor hoje. Muito, mas muito mesmo. Não tenho praticamente nada daquilo que eu considerava essencial para uma vida feliz, mas sou muito mais feliz. Hoje sonho sonhos de vida, não mais ambições de conquistas. Hoje reconheço a grandiosidade da serenidade, o valor da paz interior e o conforto da vida no caminho certo, mesmo que dificil, cansativo e desafiador.


Tenho a esperança de que outros descubram caminhos assim. E tenho a humildade para saber que a Verdade não me pertence. Cada um encontrará o seu caminho junto ao seu Sagrado, à sua dimensão de transcendência. Minha fé guia o meu caminho, mas não me considero apto a julgar os caminhos alheios. E nem quero.




Procuro apenas compartilhar aprendizados e quem sabe despertar algo nos leitores, que os façam refletir, ponderar, avaliar e questionar suas próprias vidas. São as perguntas que nos movem, não as respostas.


Não pretendo oferecer soluções, apenas ajudar a preparar o terreno para quando elas forem semeadas. Toda semente tem o pleno poder da vida em si, mas precisa de uma terra arada para germinar. E eu sou apenas um arado tentando cumprir seu propósito.





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