A Tecnologia e a dimensão Humana: podemos ser melhores do que somos



A tecnologia nos faz trabalhar melhor, com mais qualidade e agilidade. Atividades que levavam dias para sua conclusão hoje são feitas em segundos.


A automação trouxe melhor desempenho mas toda a tecnologia envolvida nos faz trabalhar mais, já que estamos continuamente disponíveis para nossas exigências profissionais. O sonho de que as coisas seriam automatizadas para que tivéssemos mais tempo livre ainda é uma utopia.


Não foi a tecnologia que nos iludiu, mas sim as exigências de um mundo cada vez mais acelerado e voraz por resultados. Se tarefas que levavam horas ou dias podem ser feitas em segundos, então que ocupemos nosso tempo restante para fazer mais e mais.


Trabalhamos melhor mas isso não significa que trabalhemos nas coisas certas. Cumprimos nossas exigências técnicas e mensuráveis com qualidade e assertividade e os sistemas garantem os padrões necessários diminuindo a chance de erros. Todos os aspectos objetivos e concretos de nosso trabalho foram beneficiados pelos avanços tecnológicos.


Mas e quanto aos aspectos subjetivos?


  • Como ficam os aspectos relacionados ao ser humano no trabalho com toda a tecnologia que temos em nossas empresas?


  • A possibilidade de falar a qualquer momento com nossos subordinados pelo whatsapp nos fez líderes melhores?


  • A dimensão humana no trabalho acompanhou a evolução da dimensão técnica?


  • Ou ainda vivemos o mesmo modelo “cenoura e chicote” que existiu desde sempre, agora disfarçado pelas exigências do politicamente correto e por espaços de trabalho que imitam áreas de lazer?


Sou um entusiasta de tecnologias, novas e antigas. Gosto desde sempre. Na música, por exemplo, aprecio desde os discos em vinil de 78 rotações até os serviços de streaming de hoje, além da minha prazerosa e vasta coleção de LPs, CDs, músicas no Ipod, celular e na minha biblioteca do computador sincronizada na nuvem.


Amor de criança, reforçado na adolescência quando dei meus primeiros passos na informática mexendo em um TK-82C, há quase 40 anos. Fiz curso de BASIC e depois colégio técnico de eletrônica que me levou a um estágio na Prológica consertando computadores dos clientes.


As frases acima têm vários termos desconhecidos para a maioria de meus leitores. Reconheço que sou um dinossauro tecnológico, sobrevivente e continuamente encantado pelas mudanças que o tempo nos traz.


Passada a fase de entusiasmo eletrônico encontrei outro ideal profissional: a administração de empresas. Entender de negócios, gestão e estratégia passou a ser a minha busca profissional e logo aliei meu gosto por tecnologias com a administração.


Acompanhei muitas evoluções tecnológicas e de gestão. Atravessei modismos e enganações, mas também vi e participei de mudanças consistentes e revolucionárias.


Comecei minha carreira quando as empresas adotavam os microcomputadores. Os pc´s facilitaram o acesso à informática às empresas que não tinham como investir nos gigantescos mainframes. Estes “computadores pessoais” começaram isolados, passaram a ser ligados em rede com servidores e depois conectados ao mundo pela internet.


Olhando agora parece um caminho natural não? Mas não foi simples, o caminho se fez aos trancos e barrancos, erros e acertos, enormes investimentos e desperdícios de tempo e dinheiro.


Quando uma inovação tecnológica significativa acontece ela simplesmente muda tudo. Os mainframes estão praticamente extintos, os servidores caros de se comprar e de se manter estão no mesmo caminho com as soluções cloud tomando conta.


A maior parte das empresas hoje não se preocupa com CPDs (mais um termo que poucos conhecem) e suas imensas exigências de controle, temperatura, fornecimento contínuo de energia, redundância de equipamentos e componentes, softwares caros e profissionais especializados.


Agora compramos um espaço de armazenamento em soluções cloud. E podemos alugar por hora qualquer capacidade de processamento em servidores de qualquer um dos muitos datacenters espalhados pelo planeta.


As mudanças não ficaram restritas a equipamentos. Softwares absurdamente caros e engessados e que raramente cumpriam todas as suas promessas hoje estão relegados ao passado (alguns permanecem sobrevivendo por teimosia). Existem muitas soluções de sistemas que podemos pagar por assinatura mensal, usando apenas os recursos que precisamos e usufruindo da simplicidade de soluções pensadas para o usuário, além de mantidas na nuvem pelo fornecedor (que é o responsável pelo “CPD” agora).


Os próprios conceitos de hardware e software ficam estranhos quando podemos contratar um serviço por assinatura ou apenas uma tarefa pontual. É fácil contratar qualquer profissional por tarefa, de qualquer especialidade, em várias plataformas que reúnem freelancers de todo o mundo. Você pode encerrar seu expediente passando uma atividade para um especialista na Índia, ele desenvolve a tarefa enquanto você dorme e no dia seguinte pela manhã você continua o trabalho sem interrupção.



Esse mundo pode parecer óbvio para quem entrou no mercado de trabalho nestes últimos cinco ou dez anos. Mas era impensável antes disso.


Acreditem, sou esse dinossauro e assisti a tudo isso participando do enredo, como o Raul testemunhando a história desde que nasceu há dez mil anos atrás.


Meus interesses por tecnologia e por gestão me levaram a atuar na intersecção destas áreas. Meu foco foi como administrador, não como técnico. Estive envolvido em muitas implantações de sistemas (aqueles engessados) e inovações de processos através de recursos de tecnologia e gestão. Alcancei muitos resultados positivos mas na maior parte das vezes os resultados ficaram abaixo dos esperados, embora ainda assim significativos.


Durante muitos anos acreditei que a equação “tecnologia moderna + gestão eficiente” resultaria automaticamente em empresas mais competitivas, mais lucrativas e bem-sucedidas. Ingenuamente acreditava que os resultados previstos com as mudanças propostas bastariam para garantir o comprometimento das pessoas com o esforço.

Os projetos de implantação de sistemas e mudanças de processos sempre consideraram o treinamento das pessoas envolvidas nas funcionalidades do sistema ou exigências dos novos processos. Em todos os projetos que participei as pessoas eram consideradas apenas nesse aspecto: seriam os braços a mover as alavancas certas na hora certa.


Os profissionais envolvidos aceitavam aprender a nova tecnologia e os novos processos por não ter escolha, mas também por ser uma forma de enriquecerem seus currículos e ficarem mais atraentes para o mercado.


Estes projetos exigiam mais trabalho dos funcionários, traziam incertezas, pressões e exigências. Em TODAS as implantações de sistemas e processos que participei esta foi a fórmula com as equipes. O “ganho” que cada funcionário teve se restringiu à melhora de seu currículo.


Ou seja, para melhorar seus processos e tecnologias, honrar seus investimentos e alcançar seus ambiciosos resultados de produtividade, as empresas ofereciam como principal ganho a seus funcionários uma maior capacidade para que eles fossem trabalhar em outro lugar.



Parece absurdo? Parece e é.


Parece coisa do passado? Não, infelizmente ainda acontece muito.


Isso explica em parte por que os resultados prometidos raramente são alcançados.



A empresa investe uma fortuna nos projetos, licenças e nos cursos padronizados destinados a capacitar os funcionários para que eles operem no novo formato/processo/sistema. E o orçamento ainda contempla uma “campanha motivacional”, mostrando como o mundo será bom depois da implantação.


Muitas vezes a otimização de processos corta cabeças. O que era feito com cinco pessoas passa a ser feito com quatro. A equipe tem essa consciência. Os consultores “vendem esse benefício em seu pacote”, os executivos e donos da empresa compram o pacote, mas quem “paga o pato” são os infelizes cabeças cortadas. O ambiente só funciona porque a hipocrisia impera e todos fingem não perceber o que os outros pensam.


  • Por que o ganho de produtividade não vem acompanhado de uma melhor forma de trabalho para toda a equipe?

  • Porque não reservar parte da produtividade ganha em horas de atividades subjetivas, pessoa a pessoa?

  • Por que não investir os ganhos na verdadeira transformação das pessoas em profissionais melhores do que simplesmente trocar cinco pessoas por quatro com mais responsabilidades e tarefas?




Compartilhar resultados deveria ser muito mais do que apenas distribuir lucros.


Partes dos ganhos de produtividade trazidos pela tecnologia deveriam ser revertidas em mais horas de trabalho dedicadas à interação humana, a aprendizagem mútua, ao pensamento livre que poderia levar a outras inovações e melhorias.


A busca incessante de resultados objetivos de curto prazo pode ser um tiro no pé a longo prazo. Se as empresas não mudarem essa visão acabarão sem seus melhores funcionários, que buscarão ambientes mais favoráveis ao seu desenvolvimento. Aliás, já vi muito disso acontecendo por aí.


Ok, a pressão dos custos é crescente. A concorrência é grande, as margens são cada vez menores. Sei de cor os argumentos baseados nas objetividades cruas dos empreendimentos. Isso é o que a Matrix permite que seja visto, observado, analisado e dissecado. A racionalidade impera, afinal trata-se do “mundo dos negócios”.


O que retrato nessas linhas é a realidade de uma grande parte das empresas, que seguem com seus funcionários pouco motivados carregando suas máscaras de “bom profissional”. No fundo estão infelizes e tudo o que querem é sumir, sair pelo mundo, outro emprego, outra vida. Mas os boletos não param e estão presos a seus compromissos, algemados à realidade que lhes é imposta.


Sou otimista em relação à humanidade e vejo cada vez mais empresas que vivem outra realidade.


A racionalidade da dimensão objetiva precisa ser tratada, afinal toda empresa se sustenta oferecendo algo que seus clientes compram a um preço maior que seu custo. Mas é na dimensão da subjetividade que algumas se diferenciam.


Empresas que sabem que não são apenas um CNPJ, um computador e um ambiente divertido. Reconhecem que só existe a empresa com as pessoas que administram o CNPJ, mexem as alavancas de seus maquinários e sistemas e se sentam em seus puffs coloridos.

Empresas que sabem que sem as pessoas não são nada. Aliás preciso me corrigir: empresas por si nada sabem, quem sabe algo são seus dirigentes e donos. São este líderes que conduzem, induzem, inspiram e orientam outras pessoas a fazer essa empresa existir e permanecer existindo, criando condições objetivas e materiais a todos os que ali estão.


Empresas humanizadas assim não buscam a produtividade a qualquer custo.


Sabem que as inovações tecnológicas vem e vão e não investem seus recursos para cortar cabeças mas para ter melhores cabeças.


Empresas que reconhecem a dimensão humana acima das demais - o que chega a ser absurdamente óbvio e pouco entendido.


Alguns podem me achar um lunático ou um sonhador. Sou mesmo e nessa fase da minha vida pretendo sê-lo mais e mais. Mas sou testemunha da história, um dinossauro que participou do enredo da humanidade nesta janela de tempo em que aqui estamos. Sei o que vi e o que vivi.




Vi muitas empresas assim, dignas, humanas, que tem muito mais a fazer do que apenas perseguir o lucro a qualquer custo.


Empresas que sabem que o verdadeiro resultado “no azul” acontece nas pessoas, não nas planilhas e balanços contábeis.


Que esse mundo continuamente novo e recheado de tecnologias que nos fazem trabalhar mais e melhor possa realmente nos fazer pessoas melhores, umas com as outras e umas pelas outras.


Empresários e executivos que decidem por estas mudanças, reflitam sobre o ganho objetivo de se investir no subjetivo.


Pessoas felizes, seguindo um propósito coerente são mais produtivas, não vão procurar emprego no concorrente e farão de tudo para que seus clientes sejam bem atendidos e sua empresa tenha bons resultados.


Façam o certo, mesmo que suas intenções sejam apenas pragmáticas. Por melhor que seja a evolução tecnológica ou administrativa, sem pessoas comprometidas seus resultados serão sempre menores do que poderiam ser. Sua empresa pode estimular um ciclo favorável para um ambiente de negócios cada vez mais humano, com pessoas favorecidas pelas mudanças e não oprimidas por elas.






Este texto foi desenvolvido a partir do apoio da Populis em seus esforços para desenvolver e disseminar conhecimentos relevantes da área de Recursos Humanos. A Populis é uma empresa que oferece soluções inteligentes para Folha de Pagamento.


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