A moça do balão amarelo

Atualizado: 12 de Ago de 2019



A gargalhada do menino gostosamente tomou conta do vagão do metrô. Uma daquelas risadas que nos inspira um sorriso involuntário.


Esparramado no colo de sua mãe o menino tentava alcançar o balão amarelo, preso a uma vareta. Sua mãe ia e vinha com o balão, batendo levemente com ele em seu rostinho. O menino ria e com seus bracinhos ágeis tentava agarrá-lo, sem conseguir.


Sabe aquela criança que dá vontade de apertar? Pois é. Devia ter uns dois ou três anos o menino. E sua alegria era contagiante.


No entanto a cena não era perfeita, algo ali não combinava: a expressão triste da mãe.


Uma jovem mãe, talvez nem vinte anos ainda. Mesmo brincando com seu filho seu olhar era triste e pesaroso. No auge de algumas gargalhadas do moleque seus lábios apenas esboçavam um discreto e rápido sorriso, logo escondido na sobriedade pesada de sua face triste.


Procurei por uma aliança em suas mãos e não vi. Seria ela mãe solteira e a criança um menino sem pai? Talvez fosse esse o motivo, talvez não. Só pude conjecturar as tristes possibilidades que levavam aquela moça a não se alegrar com a diversão do menino com o balão amarelo.


A cena me apresentava a inocência presente e feliz do menino junto da inocência precocemente perdida daquela moça, também ela quase uma criança.


Quando perdemos nós a visão idílica da meninice e a substituímos pelas durezas da adultice?


Cada um tem seu próprio triste momento. Uns precoces, outros tardios. No meu caso, uma briga entre meus pais me fez perceber cedo a dureza da vida. Problemas entre eles já existiam, mas hoje identifico um evento que marcou a derrubada da fantasia de uma infância perfeita.


Como pai tentei prolongar a infância de minhas filhas, ou prolongar o período de ilusão contra as dificuldades que a vida inevitavelmente apresentaria. Posso ser acusado por tentar atrasar a maturidade delas, talvez. Afinal, pais e mães buscam proporcionar o que não tiveram a seus filhos não é? Eu e minha esposa viemos de lares conturbados e tentamos construir uma família de comercial de margarina. Se deu certo? Por um tempo sim.


Hoje minhas filhas são adultas, encarando suas vidas e suas próprias dificuldades. Ainda moramos todos juntos e elas enfrentam corajosamente seus desafios de faculdade e trabalho. Em algum momento perderam as suas ilusões da infância, não sei quando ou como. Curioso que eu não saiba, não? Espero que tenha sido de forma gradual e não abrupta, já que eu e sua mãe tentamos que assim fosse, embora muitas vezes não tenhamos conseguido evitar que nossos próprios problemas as afetassem.


Sei que filhos terão que enfrentar suas próprias realidades. Por enquanto posso tentar ajudar às minhas numa coisa ou outra, ou pelo menos estar disponível. Um dia não estarei mais aqui e elas estarão por sua conta, espero que nesse momento com suas próprias famílias, alegrias, responsabilidades e inevitáveis tristezas, pois nada somos sem elas.


Essas coisas passaram cinematograficamente pela minha cabeça no breve trajeto daquele metrô, quase me fazendo perder a minha parada. Saí do trem com meus olhos ainda encantados com o menino alegre e meus pensamentos obscurecidos pela tristeza da moça.


Eu espero que seus problemas sejam leves, que seja apenas uma conta atrasada ou quem sabe uma discussão tola com seu possível companheiro, pai daquele lindo menino.


No fundo, o que eu mais queria ali era ter o poder de tirar aquela dor e deixar a cena perfeita: o menino dando sua deliciosa gargalhada e a mãe sorrindo iluminada. Mas não era meu o roteiro, afinal.

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