A inquietude no trabalho de equipe: a diversidade etária



Há algum tempo relatei uma experiência sobre criação de uma equipe com diversidade etária e os excelentes resultados obtidos. Esse artigo pode ser encontrado aqui.


Nos textos recentes abordei a inquietude como competência profissional, tanto em cargos operacionais quanto nas posições de liderança. Destaquei a importância da inquietude em processos de inovação e a forma como impulsionei a minha carreira canalizando a minha inquietude através de um processo estruturado de ações. Denominei esse processo como DCAC (Descobrir, Conhecer, Aprender, Compartilhar).


Se você ainda não leu esses artigos que citei sugiro que faça. Agora quero explorar um outro aspecto relativo à inquietude no trabalho, que é o esforço de equipe com as vantagens da diversidade de idade dos profissionais.


Não é uma verdade absoluta, mas a inquietude é uma característica da juventude. As pessoas mais velhas tendem a ser mais conservadoras. Reforço, não é uma regra geral, apenas uma condição geral.


Pensem na combinação de dois profissionais assim: Um jovem, destemido e inquieto, cheio de disposição para mudar as coisas e um profissional maduro, experiente, hábil em negociações e conflitos, especialista em suas áreas de conhecimento.


É uma combinação que pode ser explosiva: pode ocorrer um grande conflito e desavenças entre eles ou então uma combinação de esforços capaz de gerar transformações efetivas e consistentes.


Ambos precisam ter a disposição ao alinhamento, mas cabe ao líder criar as melhores condições de colaboração entre eles. O potencial de inovações consistentes de excelentes resultados é elevado, mesmo com o risco de divergências e conflitos.


Um aparte necessário: conflitos podem ser extremamente produtivos para a obtenção de resultados consistentes. Equipes que não conflitam tendem a resultados medianos. O resultado de profissionais que conflitam de maneira produtiva e respeitosa (claro) tendem a ser muito maiores.


Aprender a conflitar de maneira produtiva é essencial. Alinhamento de esforços e metas, transparência de objetivos, respeito mútuo, liderança presente e assertiva. Equipes conduzidas dessa forma tendem a gerar mais e melhores resultados, mas é exigido de cada um a boa postura profissional, inteligência emocional e disposição efetiva de alcançar resultados coletivamente.


Uma equipe com diversidade etária e capaz de conflitar produtivamente alcançará resultados significativos de inovação, aprendizado compartilhado, padrões de qualidade e produtividade.




Como eu disse no artigo sobre diversidade etária:


Além do respeito ao ser humano, a essência do processo de estímulo à diversidade é a combinação de diferentes experiências e realidades para a construção de um resultado que seja maior que a soma das partes e aplicável à nossa sociedade. De todos os critérios de diferenciação de pessoas e combinação de diversidade, a idade é um dos mais importantes pois garante esta combinação preciosa de experiência, motivação, maturidade e juventude.

Acredito que a “inquietude”, na forma como venho tratando, se encaixa nesse aspecto de motivação, como “motivo para se fazer algo”. Simplificando, um profissional inquieto quer mudar as coisas para alcançar novos resultados e um profissional mais conservador quer fazer as coisas da forma definida com a maior qualidade possível, garantindo os resultados pretendidos.


Nos textos comentei sobre “vespeiros”, coisas que as pessoas percebem que estão erradas mas não querem colocar as mãos. Uma pessoa inquieta aliada a alguém experiente e conhecedora dos detalhes pode ser a forma mais adequada de cuidar de questões assim.


O que penso não é uma regra geral, claro. Vi pessoas jovens com mais maturidade que pessoas com mais idade. Mas existem certos padrões de comportamento, atitudes e conhecimentos que são típicos da juventude e da maturidade.


A juventude traz ousadia, coragem, disposição e energia. Carrega a esperança de que tudo pode mudar para melhor. A maturidade traz a experiência, o conhecimento e a sabedoria de que todas as coisas precisam de seu tempo para acontecer. Além disso, pessoas mais experientes já conseguiram desenvolver sua capacidade de empatia, estabelecendo negociações e resolvendo conflitos compreendendo melhor as posições dos envolvidos.


Combinar juventude e maturidade é uma proposição de esforços capaz de trazer inovações acertadas, integrais, efetivas, sem grandes traumas, utilizando o melhor do passado com uma nova visão do presente. Se você é um líder e pode mexer na composição da sua equipe, sugiro enfaticamente que considere essa possibilidade. Sei que as empresas tendem a buscar profissionais mais jovens e a tentar uma certa “sintonia de perfis” das pessoas. Isso pode ajudar a ter uma equipe uniforme, que trabalha junto com facilidade, sem conflitos. Mas pode significar uma equipe de resultados medianos, dentro da curva esperada.


Se você busca coisas diferentes para o seu time, quer inovações e resultados acima do previsível, opte pela diversidade, principalmente etária.


Essa diferença de idades ainda traz a capacidade de preparar melhores profissionais. O compartilhamento de conhecimentos e habilidades através de projetos e desafios específicos cria relações de mentoria na prática, de mão dupla, onde os profissionais aprendem uns com os outros, irmanados na busca de soluções. Aprendizado na prática, em tempo real, nada pode ser mais efetivo na formação de um profissional.




Relatei uma das experiências que tive no texto que citei logo no início desse artigo, mas foram muitas as experiências que participei. Devo muito do que sou por ter aprendido com profissionais incríveis que se dispuseram a acolher um jovem inquieto e com ele desenvolver muitos projetos inovadores. Aprendi muito com os desafios superados, problemas evitados e principalmente aprendi como as coisas funcionam, como as pessoas pensam, conflitam, negociam.


Somos seres sociais em essência, mas não nascemos com o todo o traquejo social, ele vai sendo desenvolvido nas interações ao longo da vida. E aprendemos uns com os outros, desde sempre. É assim que a humanidade evolui, trabalhando e aprendendo juntos.

Por isso a diversidade em todas as suas formas é importante. Homens e mulheres, culturas distintas, idades distintas podem se completar e interagir usufruindo o que há de melhor na natureza, cultura e sabedoria humana.


Acho que o mercado de trabalho, de forma geral, desperdiça a oportunidade de aliar profissionais de diferentes faixas etárias. Posso entender os motivos de manter uma equipe de perfis similares, entendo que profissionais experientes tenham diferentes expectativas, podem existir motivos de custos adicionais. Mas um líder que sabe compor e conduzir uma equipe diversa, aliando maturidade e juventude, inquietude e experiência, vai alcançar resultados melhores, mesmo que existam conflitos e eventuais divergências.


Mesmo no ambiente das startups vemos muitas vezes jovens envolvidos com mentores, conselheiros e executivos experientes. Os investidores gostam disso e não é por falta de motivos.


Se você é líder de equipes, considere a possibilidade da diversidade etária. Pense a respeito e procure conhecer experiências em outras empresas. Muitas tem conseguido ótimos resultados.


Se você é um jovem profissional deve saber que pode aprender muito com os mais experientes, atuando em projetos conjuntos e também em relações de mentoria. Eu fui muito beneficiado pelas duas coisas e posso assegurar que são essenciais para o desenvolvimento de uma carreira de sucesso.




Como profissional maduro também participei de projetos com jovens e aprendi muito com eles. Fui “contaminado” pelas suas energias e disposição, aprendi coisas novas, tecnológicas ou não, aprendi a compartilhar informações como forma natural de trabalho e outros valores muito pertinentes dessa nossa época, que essa moçada já traz do berço.


O Brasil tem ótimos profissionais, no mercado e fora dele. Existem profissionais incríveis desempregados pela barreira da idade. É muito bom ter a moçada recém saída da faculdade, falando dois ou três idiomas e craques no digital. Mas é um desperdício social e financeiro não aproveitar a experiência e maturidade dos mais velhos para compor equipes diversificadas e capazes de resultados inovadores e consistentes.


Para quem acha que sou um sonhador, quero finalizar com o seguinte: nos anos 80 um executivo de 40 anos estava fora do mercado por ser “velho”. Eu sei, porque meu pai foi um deles. Eu estou com 53, já fui executivo, consultor, empresário e hoje escrevo e produzo conteúdos na internet. Estou aqui digitando no meu notebook em Lisboa, como um nômade digital, vivendo a quarentena do corona mas trabalhando. Algo impensável há uma geração.

A colaboração entre pessoas de idades diferentes será o próximo grande salto, tenho certeza. Se ainda tem dúvidas, assista ao vídeo abaixo (dica do amigo @Ubirajara)





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Se você também é inquieto e quer comentar sobre situações que enfrenta, aproveita e escreve. Pode comentar aqui embaixo ou me mandar uma mensagem privada se quiser a minha opinião. Pode ser apenas uma conversa ou quem sabe uma mentoria para que você também seja um “reformador de empresas”. Não desperdice a sua inquietude!

William Andreotti Jr.

Escritor, consultor, mentor e produtor de conteúdos sobre Administração, Negócios, Recursos Humanos e Carreiras. Defensor de uma visão humanizada para o mundo dos negócios e carreiras profissionais baseadas em princípios e valores.


Texto publicado originalmente no site da Populis em 19 de março de 2020.

Este texto foi desenvolvido a partir do apoio da Populis em seus esforços para desenvolver e disseminar conhecimentos relevantes da área de Recursos Humanos. A Populis é uma empresa que oferece soluções inteligentes para Folha de Pagamento.

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